12 – DOMINIQUE
Passei todo o dia 26 de dezembro trancada no quarto com Alex. Estávamos deitamos em minha cama, ele com o corpo virado de lado e um braço estendido, enquanto eu fitava o teto com a cabeça em seu braço.
- Nunca mais pense em terminar comigo, hein. – falei, brincando com os botões de sua camisa.
- Você é chantagista. – ele respondeu, bagunçando meu cabelo.
- Não era chantagem, era a verdade.
Estava chovendo do lado de fora. Uma chuva leve, mas o bastante para refrescar o clima.
- É melhor eu ir embora. – ele falou – Já está bem tarde.
Nos sentamos ao mesmo tempo. Ele tocou meus lábios de leve e se levantou. Na sala, Carla e Roberto comiam pipoca. Alex se despediu deles e saiu correndo para o Audi que estava ali há horas.
Tomei um banho e me deitei, decidida a usar a chuva como forma de atrair o sono.
Tive um sonho nada comum.
Era 14 de janeiro. Quase dois anos atrás. Fazia apenas dias que eu começara a namorar Rodrigo.
Estava uma tempestade extremamente forte do lado de fora. Vesti meu pijama para ir dormir. Joguei-me na cama, fazendo-a balançar. Estava tão entediada que pular na cama parecia me divertir.
Cobri minha cabeça com o travesseiro, tentando expulsar o som dos trovões. Demorei em dormir, mas quando finalmente consegui um sonho confuso me ocorreu:
Estava em uma praia, completamente deserta. Meus pés estavam descalços e usava o mesmo pijama no qual dormira.
A praia era serena. Pequenas ondas se quebravam na beira. A areia estava morna. E o céu alaranjado, como se fosse crepúsculo.
Havia uma garota ao meu lado. Era loira, com cachos longos e grossos caindo até as costas; os olhos eram verde-esmeralda; usava roupas sofisticadas; tinha a pele branca e delicada, a pele dos sonhos de qualquer garota.
Por um momento acreditei que aquela era uma antiga amiga que fora morar na França, mas desacreditei quando lembrei que não nos víamos desde os sete anos. Seria impossível sonhar com ela daquele jeito sem vê-la assim antes.
De repente me dei conta de que eu sabia que estava sonhando. Normalmente quando notamos isso, acabamos acordando. Mas o sonho estava tão sólido.
- Oi. – a garota me cumprimentou.
Tinha a voz delicada, parecendo veludo.
- Como você mudou, Bia. – ela continuou. – Claro que continua usando as mesmas roupas de moleque, mas está tão linda.
Ela riu, fazendo o som de sua risada parecer sininhos tocando.
- Estou sonhando? – finalmente perguntei.
- Não. – ela respondeu fitando o mar – É impossível sonhar comigo com dezesseis anos, sendo que não nos vemos desde os sete.
- É você, Dominique?
Ela deu um sorrisinho.
Dominique Brandão era minha amiga da França. Da última vez que nos vimos ela era bem pequena, os cabelos mais curtos e os cachos mais finos, os olhos eram verde-claros. Tinha uma voz tão aguda que chegava a ser irritante.
Sempre estávamos juntas. Ela na minha casa, ou eu na dela – que não era muito longe. Dominique, Izabela, Ariane e eu costumávamos brincar juntas desde bebê. Fernanda ainda não morava em Alphaville.
Um dia antes dela e os pais se mudarem para Paris, Dominique chegou com uma revista adolescente que continha um teste para descobrir o nome de seu marido. Claro que eu ri em abundância. O nome do marido de Nani foi Rodolfo – na época falamos que era o garoto esquisito da nossa sala. Iza recebeu o nome Caio – nenhuma de nós fazia a menor ideia de quem era. Da Dominique não apareceu. E o meu deu Rodrigo – na época Rodrigo era meu melhor amiguinho.
Nenhuma de nós levou o teste a sério, principalmente Dominique que não aceitou a ideia de ficar solteira.
- Se não estou sonhando, então...
- Estamos construindo uma lembrança.
A fitei desentendida. Como assim lembrança?
- Como assim? – perguntei.
- Este é um sonho que terá no seu subconsciente. Nunca se lembrara dele quando estiver acordada. Terá no máximo alguns lampejos.
- Mas por que você está nele? Não estou entendendo o que nós estamos fazendo aqui.
- Veja. – ela apontou para o mar, que agora possuía uma imagem curiosa.
Era em uma cidade bem movimentada. Estava chovendo. Havia uma garota andando pelas calçadas; tinha a cabeça coberta por uma touca, mas dava para se notar que era loira e usava roupas pesadas.
Ela andava apressada pela calçada, tentando não olhar para cima e assim evitar que a chuva caísse em sua pele de porcelana.
Pessoas passavam ao seu lado também fugindo da chuva. Alguém esbarrou nela e falou algo em outra língua, que pelo sotaque deduzi que fosse francês.
O celular da garota começou a tocar. Ela deslizou a mão para dentro do casaco marrom e atendeu sem ao menos ver quem era. Também falou em outra língua:
“Bonjour”.
Ela tinha a voz aveludada. Agradável aos ouvidos.
Desta vez tive certeza de que era francês. Mas a mulher do outro lado da linha falou em português:
“Amor, onde você está?”.
“Ah! Mãe é a senhora. Estou quase chegando”.
“Esqueci. É natural”.
A menina parou no sinal vermelho. Era um cruzamento tranquilo aquele. Poucos carros passavam. Finalmente o sinal verde se abriu para os pedestres. Apenas a garota atravessava.
Ouviu-se um som agudo de freada. A mãe da garota perguntou o que estava acontecendo.
A menina virou-se para ver ao seu lado esquerdo – de onde vinha o som. Só viu-se que um carro vermelho avançava derrapando na pista, em direção a faixa de pedestre. Em um segundo a menina estava olhando aterrorizada; em outro estava sendo arrastada pela frente do carro.
Ela permaneceu consciente... Até o momento em que o carro se chocou com uma árvore na calçada. A garota caiu irregular por cima do capô do carro.
Apenas os gritos de sua mãe ao telefone ecoaram:
“DOMINIQUE!”.
Olhei para Dominique aterrorizada. Era ela na cena. A voz ao telefone era de sua mãe. E o cruzamento ficava em Paris.
Abri a boca para falar, mas fechei no instante que percebi que não sabia o que dizer.
Dominique deu de ombros.
- Os franceses dirigem muito mal. – ela respondeu.
- Você morreu. – sibilei em meia voz.
- No instante em que você dormiu.
- Então seu corpo ainda está lá? – perguntei.
- Intacto.
Tentei não pensar em como ela ficara prensada entre o carro e a árvore.
A imagem já havia desaparecido da água. Aquilo tinha de ser mesmo algo do meu subconsciente. Caso contrário, precisava ser internada.
- E por que você está aqui?
- Te trouxe aqui. Este lugar eu criei em minha imaginação quando ainda estava viva. Agora posso viver no mundo em que criei e sair quando quiser.
- Mas qual o motivo para me trazer aqui?
- Sabia que todo ser humano tem alguém o protegendo? – ela ignorou a minha pergunta.
- Tipo anjo da guarda?
- Não e sim. Não porque este anjo normalmente é vivo como ser humano; e sim porque depois este ser humano morre para proteger seu escolhido quando ele mais precisar.
- E você morreu para proteger alguém.
- Não alguém, Bia. Você.
- Mas não estou necessitando tanto agora de proteção.
- Mas em alguns meses estará.
A fitei sem entender. Estava tão entediada que qualquer sensação de perigo era bem vinda.
- O que acontecerá em alguns meses? – perguntei.
Dominique se levantou e começou a andar pela água morna do mar. Pela sua expressão a sensação era ótima.
- Conhecerá alguém que mudará completamente a sua vida. Mas isso terá uma consequência enorme.
- Que pessoa?
Ela começou a fitar o vazio, como se pensasse.
- Já que esta conversa ficará em seu subconsciente, não vejo problema em contar. O nome dele é Alex.
Alex! Eu não conhecia ninguém com esse nome que poderia fazer alguma modificação em mim.
Dominique começou a correr pelo mar e desapareceu. Levantei para chamá-la, mas uma onda enorme apareceu e caiu sobre mim...
Acordei ofegando.
Não sabia o porquê, mas me sentia estranha. Lembrava que tinha sonhado, porém não lembrava sobre o que.
Quando desci à sala minha mãe deu a notícia: Dominique havia sido atropelada e o corpo estava vindo para o Brasil. Não sei porque, mas senti um lampejo e em seguida a dor pela perda.
Naquela noite – agora, depois de dois anos – me deparei no mesmo lugar. Uma praia deserta; o belo e maravilhoso crepúsculo; o mar morno tocando meus pés, eu estava descalça e de pijamas; e a garota loira ao meu lado.
Dominique.
Ela se apoiava nos braços. O cabelo cacheado caía para trás. Estava com as mesmas roupas da última vez que a vi.
Encarava o céu alaranjado, mas parecia não notá-lo. Por um momento pensei que ela não me via.
Reparei que naquele instante que estava com ela, me lembrava do sonho que esteve sempre em meu subconsciente.
- Amei o que a Gabi fez no seu cabelo. – ela falou ainda fitando o céu.
- Anjo não deveria ter tanta vaidade assim. – falei com irreverência.
- Ah! Não vou ser castigada mais mesmo.
Ficamos um tempo em silêncio. Ela parecia ter me chamado somente para ter uma companhia, e eu não sabia o que falar.
- Não estava certa quando falei do Alex? – ela perguntou, agora me fitando.
Dei um pequeno sorriso.
- Mais certa do que pude imaginar.
Ela riu, fazendo sua voz se transformar em sinos.
- Sabia que não está sendo nada fácil te proteger? – ela falou – Você tem um espírito suicida.
- Está falando do dia em que fui atrás de Gisele?
- Sim. Acha que foi fácil achar algum estranho para te vigiar no aeroporto?
- Como assim? – virei para encará-la.
- Lembra daquele que estava sentado ao seu lado e perguntou se estava perdida?
Assenti.
Lembrava bem dele. Ficou me reparando desde a hora em que cheguei no aeroporto. E na hora em que Rone chegou, ele ficou mais alerta.
- Foi aquele homem que contou a Carla que você havia saído em um Mercedes Classe C preto. Caso contrário, Alex jamais saberia que carro seguir ou que direção tomar.
- Até que para uma loira você não é burra. – zombei.
Ela me atirou um pedaço de madeira que eu não havia visto ali. A madeira bateu com força em minha cabeça.
- Au! – reclamei – Pensei que no céu os objetos não nos acertavam.
- Você não está no céu. Está no meu mundo. Onde eu crio e recrio o que eu quiser e quando quiser.
- Não cansa de ficar sozinha aqui?
- Não estou sozinha. É que você não vê os outros anjos que estão aqui. Agora mesmo tem um ao seu lado, o Afonso.
Virei para meu lado esquerdo e não enxerguei nada, a não ser areia e pedras.
- Estou pensando em criar outro mundo. Igual aos Montes Suíços.
- Não vou te visitar se estiver em um lugar com neve. Sabe que odeio o frio.
- Tenho que aproveitar antes de você vir para cá também. Depois iremos dividir o mundo.
Fitei-a automaticamente.
- Como assim aproveitar? Quer dizer que vou morrer?
Ela se virou um pouco rápido demais e parecia fitar algo atrás de mim, com certeza para Afonso.
- Todo mundo vai. – ela respondeu.
- Então por que tem que aproveitar logo? Significa que não demora muito para eu morrer.
- Para quem vai viver na eternidade aqui, anos parecem dias.
A fitei sem acreditar. Dominique me escondia algo.
- Se você criou este mundo, por que tem de dividi-lo? Nem todos podem criar?
- Podem. É que vários outros anjos se cansam de seu mundo e acabam mudando para o dos outros. Claro que temos de convidá-los para eles poderem entrar.
- E quantos estão aqui com você?
- Quase trinta.
Olhei para todos os lados da praia e não via ninguém. Atrás da areia havia um trilha que levava para a floresta.
- Posso ver o que tem lá? – apontei para a floresta.
- Infelizmente não. Nenhum ser que possua sangue e corpo pode passar da praia.
- Mas o que tem?
- Algo que os humanos tentam adivinhar, mas nunca conseguem.
- Está dizendo que é...
- Não falei nada. – ela se levantou.
Também me levantei para ficar de frente para ela. Havia algo entalado em minha garganta. A pergunta que deveria ter feito desde o começo daquele sonho.
- Por que me trouxe para cá depois de tanto tempo?
- Tenho que lhe avisar: Algo terrível está para acontecer. Pior do que ser sequestrada por uma psicopata, pior do que descobrir que é adotada.
Ela continuou:
- Só quero que me prometa que vai proteger alguém. Alguém que você ainda não conhece, mas que amará mais do que Alex.
- Impossível. – falei.
- Não é impossível. E só posso te dizer uma coisa, uma charada: A história está para se repetir, mas você fará com que o final seja diferente.
- O quer dizer?
- É a única coisa que se lembrará da nossa conversa de hoje.
A história está para se repetir, mas você fará com que o final seja diferente. A frase começou a se repetir em minha cabeça.
- Vamos nos ver com mais frequência de agora em diante. Está quase amanhecendo lá, é melhor ir.
Ela desapareceu de repente e uma onda gigantesca surgiu, fazendo eu me afogar.
Acordei ofegando e transpirando, mas sem saber o porquê. Não lembrava de nada da noite passada. Apenas uma frase passava por minha cabeça: A história está para se repetir, mas você fará com que o final seja diferente.
Decidi tomar um banho lentamente, tentando esquecer a frase maluca que se passava em minha mente.
Percebi que do lado de fora uma neblina encobria a janela. Mas era verão! Por que estava frio? Droga de aquecimento global!
Roberto Valentyne tomou o café da manhã junto comigo e minha mãe. Comecei a reparar na diferença entre ele e o filho – nada biológico – Rodrigo. Mesmo não sendo parentes de sangue, Rodrigo foi criado durante a vida toda por Roberto, então por que eram tão diferentes?
Rodrigo era fútil. Claro que deixou essa mania de lado quando percebeu que estava na hora de crescer, mas ainda possuía a doidice que ter tudo o que desejava.
Roberto já era um homem tão culto. Antes de conhecê-lo todos o julgam um homem ambicioso e arrogante. A família Valentyne muitas vezes passava esta imagem, só que a maior responsável por isso era Suélen e, tempos depois, o filho.
Talvez seja isso! Rodrigo era mais o estilo da mãe. Suélen era fútil. Também queria ter do bom e do melhor... E sempre tinha. Roupas, calçados, passeios e principalmente carros.
Rodrigo os colecionava como se fosse natural. Para ele era igual colecionar carros em miniatura, todo mundo podia!
- Está com uma aparência péssima, Bia. – Carla tirou-me dos meus devaneios.
Ela estava certa. Não havia penteado o cabelo muito bem, vesti qualquer roupa que achei e calçava chinelos de dedo.
Resolvi ignorar sua observação e lhe fazer uma pergunta na qual eu não sabia o motivo de estar fazendo.
- Mãe, faz quanto tempo que Dominique morreu?
Ela me fitou assustada. Com certeza ela não esperava aquilo.
- Mês que vem serão completado dois anos. Por que a pergunta?
- Não sei. – falei cutucando meu prato com pão torrado. – A voz dela está rodando em minha cabeça.
Ela uniu as sobrancelhas, me fitando descrente.
- Bia, você não ouve a voz dela desde quando tinham sete anos.
Roberto ergueu a cabeça para me fitar também, as sobrancelhas igualmente unidas. Com certeza estavam preocupados com meu psicológico.
Lógico! Ele havia sido afetado muito na noite de natal. Sem dúvidas pensavam que eu ainda estava atordoada.
- O que a voz diz? – ele perguntou.
- A história está para se repetir, mas você fará com que o final seja diferente. – repeti.
Eles se entreolharam por um longo momento até finalmente olharem para mim.
- Deve estar assustada por causa da Gisele. – Carla falou – A história não vai se repetir, meu amor.
- Parece que a voz não se refere a isto. – falei me levantando.
Andei até meu quarto para trocar de roupa. Apenas vesti uma calça jeans e um casaco, amarrei o cabelo em um rabo-de-cavalo e calcei os tênis – o primeiro par que achei.
Saí e entrei em meu ActiveHybrid7. Não sabia para onde pretendia ir, só pensava que tinha de sair dali.
Lembrei que Dominique havia sido enterrada no cemitério mais próximo. Seria maravilhoso ir até ela e tentar descobrir porque sua voz ecoava em meus ouvidos.
Acelerei o carro e saí do jardim, logo estava voando pelas estradas de Alphaville.
Não via a tumba de Dominique desde o seu enterro. Doía-me muito pensar que uma de minhas amigas de infância não estava mais aqui.
Estacionei no pequeno estacionamento vazio. Ali havia uma pequena barraca vendendo flores, pensei em comprar, mas lembrei que ela era alérgica. Não seria uma boa homenagem.
Desci e entrei para o imenso e lindo gramado verde. Os túmulos eram organizados em ordem alfabética. Parei quando cheguei ao D. Dominique era quase a última. Seu túmulo possuía uma linda foto em Paris.
- Oi Dique. – cumprimentei-a, me sentando ao lado da pedra com seu nome.
Em meus pensamentos seu cumprimento ecoou.
- Sei que faz tempo que não venho, mas você entende meus motivos, não é?
Neste instante, um pequeno canário pousou na pedra de Dique. Fitei o pássaro por alguns segundos e nesses segundos pareceu que ele também me fitou.
Realmente eu estava louca!
- Então, – recomecei – quero saber porque sua voz está na minha cabeça. O que você quis dizer com: A história está para se repetir? Tem a ver com Gisele?
Pela visão periférica tive a sensação de ter visto o passaro negar com a cabeça. Desviei o olhar antes que começasse a acreditar no que tinha visto.
Passei a fitar sua foto. Ela estava tão linda.
- Sinto sua falta. – falei.
O canário cantou alto, me fazendo pular. Fitei-o com ira. Tentei espantá-lo, mas ele não se mexia.
Olhei para o céu nebuloso, tentando convencer a mim mesma de que o pássaro não estava me respondendo.
- Se não tem a ver com Gisele, – refleti – é com o que então?
O canário saiu voando no mesmo instante em que terminei a pergunta. De primeira fiquei aliviada por ele sair, depois percebi que ele me fitava de longe.
Estava pousado em outra tumba, poucos metros a frente. Seus pequenos olhos pretos não me deixavam.
Tentei ignorá-lo, mas se tornou impossível quando seu canto ficou alto.
Andei até a tumba e expulsei o pássaro de lá. Ele voltou ao túmulo de Dominique. Estava me preparando para voltar, quando vi o nome na pedra em que o passaro acabara de sair.
Diogo Pierce.
Fiquei paralisada diante do nome.
Havia também uma foto. Diogo sorria de orelha a orelha; estava com os cabelos grande demais, comparado com a foto que eu tinha. Ele estava tão lindo.
Foi impossível conter o jorro de lágrimas. Jamais teria passado por minha cabeça que meu pai estaria enterrado ali.
Sentei ao lado de sua tumba, minhas pernas ainda tremiam. Meus pensamentos estavam bagunçados.
- Oi pai. – cumprimentei-o, minha voz saiu trêmula. – É você mesmo aqui?
Naquele momento desejei poder ouvir a voz dele. Saber como era seu tom. Se eu e minha mãe tínhamos o mesmo gosto para som de voz.
- Nunca pensei que ia encontrar você aqui. A mamãe também está aqui?
Comecei a olhar todos os lados do cemitério. Com certeza, Bárbara estava com os B.
- Pena que você – falei – não me conheceu quando estava vivo. Tenho a certeza que teria me amado.
Levantei decidida a procurar o túmulo de Bárbara.
- Já volto, pai.
Saí andando até a fileira do B. Era imensa, seria difícil encontrar. Ela era uma das primeiras. Havia um enorme foto que eu julgaria ser minha se não soubesse toda a história.
Imaginei o que eu faria se tivesse visto isto antes de saber a verdade. Teria realmente ficado louca.
Sentei ao seu lado, a felicidade explodia em mim. Pela primeira vez falaria com Bárbara. Claro que não seria uma conversa de mão dupla, mas já bastaria.
Fitei a foto por um longo minuto.
Estava sem jeito para falar com minha mãe. Não se passava um bom diálogo em minha cabeça. Mas não precisava ser dito muita coisa.
- Não tenho muita coisa para falar, mãe. Só quero dizer: Obrigada!
Seguiu-se um longo silêncio. Com certeza eu não estava preparada para aquele encontro.
- Obrigada porque – recomecei – só estou viva por sua causa, embora isso tenha custado a sua vida.
Mudei de assunto:
- Carla fala muito bem de você. Seria maravilhoso se tivéssemos vivido juntas. Eu, você, o papai e todos os Pierce.
Percebi que eu recomeçara a chorar.
Olhei para trás de Bárbara, para onde estava meu pai.
- Por que não deixaram vocês dois juntos? Essa regra de ordem alfabética é ridícula. Mas vocês devem estar pertos, seja onde for.
Voltei a olhar para onde Diogo estava. Automaticamente olhei para o túmulo de Dominique. Encontrei o pássaro ainda lá. Estava começando a acreditar que aquele pássaro significava algo, mesmo eu nunca ter acreditado em sinais.
Retornei minha atenção a Bárbara.
- Sabia que adoro ser parecida com você? – falei.
Em algum lugar eu esperava que ela me ouvisse.
Estava apreciando sua foto quando o canário começou a cantar tão alto que chegava a arder os ouvidos. Olhei-o e percebi que seu bico agora não apontava para mim, mas para algo atrás de mim. Virei e não vi nada. Apenas segundos depois que fui perceber que o foco do pássaro estava do outro lado da rua.
Uma garota baixa, de cabelos extremamente pretos e lisos me encarava do outro lado da rua. Ela estava quase invisível por causa dos carros que passavam a sua frente, mas ainda era possível ver os olhos negros em cima de mim.
Por um momento pensei que ela me fitava com tanta atenção que nem notara que eu a reparara, depois vi que seu olhar estava no túmulo ao meu lado. Gisele tentava decorar que túmulo que eu estava vendo.
Levantei no mesmo instante. Não queria que ela viesse até a tumba de Bárbara. Sem dúvidas ela sabia que eu era adotada, e se visse a foto de minha mãe, perceberia o quanto éramos parecidas. Não queria que ela se afundasse mais em mim.
Quando levantei, ela começou a me olhar. Não tive certeza, mas parecia que ela abrira um sorriso.
Decidi que não sairia dali até ter certeza de que ela também saíra. Não a deixaria chegar perto de Dominique, Diogo e Bárbara.
Ficamos por um longo tempo nos encarando, até que um Porsche vermelho parou a sua frente e ela entrou. Se Alphaville não fosse um bairro luxuoso e vários moradores não abusassem dos carros, eu juraria que aquele era Rodrigo.
Obriguei minhas pernas trêmulas a andarem até Dominique. Despedi-me dela, depois de Diogo e Bárbara. Não poderia facilitar para aquela psicopata. O pássaro já não estava mais lá.
Entrei em minha BMW e saí, decidida andar devagar, pois minha atenção estava toda no que acontecera no cemitério.
Minha imaginação esta aflorada hoje, pensei. Não era possível que um canário me mostrara o perigo. Primeiro ele me mostrara Diogo, o que me levou até Bárbara, depois me apontara que Gisele estava me observando.
Estava louca.
Dirigia devagar pelas ruas. Agora estava passando em frente a um parque que eu quase não frenquentava. Várias pessoas aproveitavam a manhã de sol. Já estava muito quente, então as piscinas estavam lotadas. Resolvi descer e aproveitar o resto da manhã trágica que eu ainda tinha.
Estava indo me sentar em um banco nas sombras quando vi Luiz sentado na beira de um lago. Ele fitava o vazio, os pés tocando o lago em que crianças brincavam com os patos. Ele não parecia feliz.
Sentei ao seu lado, tirando meus tênis para colocar os pés na água também.
- O que aconteceu? – perguntei.
- Hã... Por quê? – Luiz pareceu confuso.
- Está estampado em sua cara que você não está bem. Então me conta o que foi!
- Saudades da Gabi. É difícil para mim quando ela volta para Londres. Faz-me lembrar daquele tempo... Você lembra.
- Claro que lembro. Foram os piores dias que já vivemos.
Ele assentiu.
- E por que você não vai para Inglaterra com ela? – perguntei.
- A mãe dela jamais deixaria eu ir atrás dela sem nos casarmos.
- Então se casem.
- Está louca?
- Vocês já têm mais de vinte anos; o futuro de vocês já é certo e vocês se amam. Quer mais o quê?
Ele ficou pensativo.
- Será melhor do que ficar sofrendo aqui no Brasil.
Luiz me olhou com um sorriso radiante.
- Sabe, você tem razão!
Comentem o capítulo ali embaixo!

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