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terça-feira, 5 de julho de 2011

Capa de Incompleta

Índice

Prólogo (clique aqui)


Capítulo1   (clique aqui)
Capítulo2   (clique aqui)
Capítulo3   (clique aqui)
Capítulo4   (clique aqui)
Capítulo5   (clique aqui)
Capítulo6   (clique aqui)
Capítulo7   (clique aqui)
Capítulo8   (clique aqui)
Capítulo9   (clique aqui)
Capítulo10 (clique aqui)
Capítulo11 (clique aqui)
Capítulo12 (clique aqui)
Capítulo13 (clique aqui)
Capítulo14 (clique aqui)
Capítulo15 (clique aqui)
Capítulo16 (clique aqui)
Capítulo17 (clique aqui)


Epílogo (clique aqui)

Prólogo

PRÓLOGO
           
            Eu não vou desistir! Embora o medo me sondasse completamente. Mas eu não entregaria tão facilmente a pessoa que um dia me fez ver o mundo de outro jeito.
            Ela poderia me perseguir a vida inteira. Meu medo jamais me pararia, pois meu amor era maior do que qualquer outro sentimento que eu tivesse. Ele valia muito o sacrifício.
            Era um jogo, e eu pretendia jogá-lo igualmente.
            Se eu o entregasse ela não pararia, continuaria a atormentar a minha vida. Mas se eu fizesse do seu modo, conseguiria tirá-lo da sua mira.
            Porém, o problema não era só esse. Ainda havia muitos obstáculos a serem enfrentados, mas enfrentaríamos juntos. Lado a lado.
            E como em um filme, eu sabia que isso teria um final feliz. Ou pelo menos esperava!

Capítulo 1


1- MUDANÇA DE ROTINA


            Sempre fui muito mimada pelos meus pais. Tenho de tudo. Mas nunca me senti tão incompleta como me sinto hoje.
            Meu nome, Beatriz Luiza Vasconsellos, mas prefiro Bia ou Beatriz Vasconsellos – acho meu nome é muito grande -, tenho 16 anos. Meus pais, Carla e Paulo Ricardo Vasconsellos, me dão uma vida boa, sou de classe média alta. Estudo na Escola Secundária de Alphaville – bairro em que moro – e tenho um namorado “mega perfeito”.
            Minha casa fica á alguns metros da escola, mas sempre eu ia de carro.
            Sou aquele tipo de menina que tem amor às amigas, a sorte que todas desejavam e – sem me exibir – a beleza invejada, apesar de me achar horrível.
            Minha rotina é sempre repetitiva e vazia. De manhã na escola, à tarde com o namorado e à noite em casa sem nada para fazer. Um tédio total... Até o dia em que tudo mudou.
            E mudou de um jeito que jamais se concertará, porém não me arrependo, já que a partir daí minha vida criou sentido.
            Uma vida vazia! É assim que me descrevo. Sempre fui cobiçada pelos meninos da região, mas meu namorado também era. Eu não gostava muito dele, só que eu tinha de realizar o sonho do meu pai. Já nem acreditava mais em amor, pensava que as pessoas se casavam a negócios, entretanto foi isso que aprendi. Retirando a ideia de minha mãe, que acreditava que um dia eu me apaixonaria.
            Argh!
            Gostava de esportes radicais. Skate era minha paixão, minha mãe me chamava de moleca e meu pai de rebelde.

O relógio desperta às seis e meia da manhã, um dia nublado e frio. Era rotina eu olhar para janela assim que acordasse, para me certificar de que ele estava ali. Lá fora, meu namorado me esperava em um dos seus carros da coleção – um Hilux preto – saio com pressa para o colégio. Quando entro no carro, vejo aquele rosto caramelo lindo olhando para mim, Rodrigo Valentyne – meu namorado – é o menino mais popular e desejado do colégio, com seu corpo musculoso e perfeito. Cabelos pretos, cortado curto e arrepiado para todos os lados possíveis. Capitão do time de futebol da escola, líbero do time de vôlei e presidente do grêmio estudantil. O menino que todas desejavam.
            Ele sempre me buscava para a escola. Após as aulas me trazia de volta para casa ou eu ficava lá com ele, vendo-o treinar os meninos do futebol ou fazendo reuniões para o grêmio – um grande tédio – preferia ficar em casa. De tarde ele ia me visitar. Meu pai gostava dele, minha mãe não demonstrava tanto carinho quanto meu pai. De noite ele ia embora e no outro dia a rotina se repetia. Sempre foi assim:
            - Oi. – falei timidamente entrando no carro.
            - Olá! – ele disse apenas isso.
            Ele saiu com o carro vagarosamente, o que não era comum dele.
            Minhas amigas costumavam falar que quando víamos a pessoa que amáva-mos um arrepio subia pelo corpo e borboletas voavam dentro do estômago, mas era impressionante como isso nunca acontecia comigo quando eu olhava para Rodrigo. Era como olhar uma pessoa qualquer.
            Chegamos na escola com tempo de sobra. Ele me deu um selinho rápido e andou para a quadra de futebol. Pior que nem me acompanhou, sempre fazia isso.
            Grosso!
            Logo o sinal tocou. Entrei junto com Ariane – uma amiga minha – e nos sentamos juntas.
            A aula era de Língua Portuguesa. Não prestei muita atenção na aula, já que textos e escritas nunca eram meu forte. Eu já estava enjoada daquele “feijão-com-arroz”, nada acontecia. Teria de mudar aquilo.
            Quando saí da escola, Rodrigo me deixou em casa e voltou com a Hilux para a escola. Diz ele que era para uma reunião do grêmio. Entrei em casa pouco disposta. Estava cheia de dever de casa, mas não fiz nenhum, em vez disso peguei meu skate e saí.
            Na praça da cidade tinha vários lugares bons para fazer manobras radicais. Lá eu tinha vários amigos, entre eles: Joni e Olavo.
            - Bia! – Joni veio a meu encontro.
            Joni era de um moreno chocolate; usava calças e camisetas largas e um boné branco com aba reta e grande, sempre virado de lado. Era bonito, para quem gostava de estilos radicais. Mas o que eu estava falando? Eu não era muito diferente do estilo dele, só não usava o boné, nem as calças muito largas.
            - Oi. – falei.
            Notei que Olavo não estava lá.
            - Todo dia você vem aqui. Não enjoa? – Joni perguntou.
            - Enjoa, mas é a melhor coisa que faço no meu dia. É um saco.
            - Você é diferente. Não curte shopping, cinema...
            - Até que curto. – interrompi – Mas sozinha é chato. Minhas amigas não têm a mesma sintonia que eu. E Rodrigo... Aphf! Nem dá graça.
            Ele riu da minha colocação.
            Começamos nossa brincadeira de subir e descer rampas, porém nada me distraía. Resolvi ir embora.
            Em casa, Rodrigo me esperava. Fiquei alguns minutinhos com ele, mas logo pedi para ele ir embora para eu dormir. Foi engraçado mandar ele embora.
            Dormi tranquilamente àquela noite.

            Acordei com o barulho do despertador. Já estava atrasada! Corri na janela e estranhei ver meu namorado com o mesmo carro de ontem – a Hilux. Tomei o café da manhã apressada e corri para o carro.
            Estava preparada para a mesma rotina de sempre...
            Mas naquele dia algo aconteceu. Minha vida mudou radicalmente.
            - Olá Bia, está atrasada hoje. - disse Rodrigo em sua voz rouca.
            - Ah! Oi me desculpe, acordei tarde.
            - Tudo bem. Chegaremos para a primeira aula. – respondeu ele rindo.
Ainda estava frio quando chegamos, o sinal já havia tocado há dois minutos. Saímos do carro apressados e nos despedimos apenas com um abraço.
            Quando entrei na sala a aula ainda não havia começado. Sentei-me ao lado de Izabela, uma amiga antiga que eu adorava. As outras amigas minha, Ariane e Fernanda, também estavam próximas e como sempre, conversando sobre os meninos do futebol.
            - Eai Bia, - falou Izabela – atrasada de novo? O que anda aprontando?
            - Oi Iza, - respondi – é que acordei atrasada e hoje o Rodrigo estava com um carro mais lento.
            - Arrã! – Ela comentou com escárnio.
            A aula começou. O professor Bruno já entrou anunciando uma prova. Todos ficaram desesperados. Uma prova surpresa não era nada agradável, muito menos quando não se sabia nada do conteúdo.
            Fiquei feliz por ver que eu não era a única que não sabia o conteúdo, pois todos estavam nervosos e preparando colas improvisadas. Esperava que a sala tivesse nenhum “nerd”, se não tivesse, talvez o professor reconsiderasse a prova, já que teríamos a desculpa de ninguém ter aprendido. Mas se tivéssemos alguém inteligente, estaríamos perdidos.
            Era impressionante como eu nunca prestava atenção nos meus próprios colegas de classe. Estávamos no meio do bimestre e eu não sabia se tínhamos um “nerd”? Claro! Eu só conversava com minhas amigas, e o único colega que eu reparava fora elas era o agitador da sala, o que sempre fazia as piadinhas.
            Quando a prova iniciou, todos ainda estavam aflitos, menos um, havia um menino super concentrado na prova como se soubesse tudo.
            Ótimo! Tínhamos um C.D.F.
            - Ei! Psiu! Sabe responder isto? – perguntou Ariane, se referindo a prova.
            Parei de me lamentar para ouvir o que ela tinha a dizer.
            - Não Nani, - respondi – não sei nada. Mas parece que o outro ali sabe tudo.
            Apontei com o polegar por sobre o ombro.
            - Quem? O Alex? – perguntou.
            - É, acho que é esse o nome dele. – respondi confusa.
            - Isso não é nada novo, ele sempre foi inteligente.
            - Hum! – Foi só o que consegui responder.
            Engraçado! Nani notava ele e eu jamais o teria visto.
            - Você nunca tinha reparado ele ali? – perguntou Nani um pouco surpresa.
            - Acho que não. Deveria?
            - Sim, deveria. Ele além de inteligente é um gato!
            Olhei por sobre o ombro. Um menino alto de cabelos claros cobertos pelo boné preto. Olhos escuros e bem desenhados.
            Ele se levantou para entregar a prova já terminada e reparei o belo corpo esbelto e ao mesmo tempo musculoso, de um jeito natural, e alto. Tive que concor-dar:
            - É, ele é lindo!
            O garoto largou a prova em cima da mesa do professor; falou algo que não consegui ler em seus lábios e depois se virou, no sentido contrário a sua mesa, na minha direção. Sobressaltei e tentei desviar os olhos a tempo, mas parece que não consegui. Um sorriso saiu do canto de seus lábios. Um sorriso que me fez arrepiar, e eu não sabia o porquê.
            - Muito lindo. – Nani acrescentou.
            Fomos interrompidas pelo professor. A aula já tinha acabado e eu estava com a prova em branco.
            - Você terminou? – perguntou Iza.
            - Não. Está tudo em branco – respondi aflita – e você?
            - Também não.
            Todos entregaram a prova incompleta, menos o menino lindo e inteligente. Fiquei encarando-o tentando entender porque eu não havia visto ele antes, quando de repente ele se virou para mim. Parecia rotina dele. Ele simplesmente virou o rosto na minha direção e vi sua expressão mudar quando me viu olhando-o. Ele ficou com uma cor rubra, seu rosto virou automaticamente, mas consegui ver outra vez um sorriso torto – incrivelmente lindo – saindo de seus lábios. Também virei o rosto decidindo não encará-lo mais.
            Nas trocas de aula sempre há um intervalo de dez minutos para todos se organizar e descansar. Aproveitei este intervalo para ver Rodrigo.
            Fiquei me divertindo com minhas amigas. Jogando vôlei – coisa que fazíamos muito bem – e logo o segundo sinal tocou.
            Continuei sentada junto com Izabela, mas percebi que não conseguia tirar os olhos do garoto lindo. Eu estava encantada pela beleza dele.
            Algumas vezes o garoto parava para me olhar também e sempre encontrava meu olhar nele. Decidi não encará-lo mais. Só que meus pensamentos continuaram nele.
            Nas outras aulas foi à mesma coisa, só consegui aliviar meus pensamentos quando vi Rodrigo. Ele me levou para a casa e ficou lá comigo.
            Almoçamos juntos. Eu sem dizer uma palavra, ele me analisando com as sobrancelhas unidas.
            - Vai andar de skate na praça hoje? – ele tentou puxar assunto.
            - Não. – respondi.
            Ele me olhou confuso.
            - Por quê?
            - Não estou afim. – respondi me levantando – Por que, sou obrigada?
            - Credo Bia! Você só tem más respostas.
            Dei as costas para ele e subi ao meu quarto. Percebi que Rodrigo saiu pela porta da frente e arrancou com o carro.
            Ótimo. Já não aguentava mais ele.
            Liguei meu computador e fiquei mexendo nos meus blogs e sites de relacio-namento. Assim fiquei, até tarde da noite.
            Dormi percebendo que um sorriso grudou em meu rosto. Mas por quê? Relaxei e fechei os olhos.

            Levantei cedo naquele dia. Pude me arrumar com calma antes de correr para a janela e ver um Honda City cinza. Tomei o café da manhã e saí para o jardim.
            Chegamos vinte minutos adiantados. Mais uma vez Rodrigo saiu me deixan-do sozinha. Segui para a sala, sei que estava cedo, mas era o melhor lugar para ficar sozinha e esperar começar a aula.
            O sinal tocou e aos poucos os alunos iam entrando.
            Meu coração deu uma falhada quando o nerd lindo entrou. Ele estava com uma camisa de botões branca, uma calça jeans que combinava com a camisa e o tradicional boné.
            Coloquei a mão no peito para ver se meu coração tinha mesmo se acelerado. Estava. Meu Deus, o que era aquilo?
            Fernanda se sentou ao meu lado. Tentei me concentrar na conversa com ela, mas o rapaz no fundo da sala me chamava atenção. Hoje, ele me encarava sem disfarçar.
            Finalmente o sinal do intervalo tocou. Saí sem olhar para trás.
            Assisti ao jogo de futebol do time de Rodrigo e logo o outro sinal tocou. Meu estômago se revirou.
            Entramos para a segunda aula, a professora Lucia já estava na sala.
            - Vou passar um trabalho para vocês, hoje. - ela anunciou.
            Os alunos reclamaram e a professora rebateu:
            - Vocês estão com notas muito baixas, terão que recompensar isso. Será em duplas, mas eu irei escolher. Quero ter a certeza que farão o trabalho e não ficarão de brincadeira com seus amigos.
            Todos ficaram decepcionados com o anúncio. Ninguém queria trabalho, muito menos em dupla escolhida.
            - Vou começar a escolher. – avisou a professora – Juliana você irá com Marcos, Izabela você com Lucas, Ariane você com Aline, Beatriz...
            Eu não estava prestando muita atenção, quando ela falou meu nome. Eu ainda olhava o belo garoto no fundo da sala. Ele parecia não se incomodar com o trabalho, na verdade, ele parecia ser aquele tipo de despreocupado. Percebi que muitas garotas se interessaram em fazer o trabalho com ele, mas o menino nem se incomodou, apenas me encarou.
            Um frio me arrepiou quando percebi que a professora falara comigo. Com quem será que eu iria fazer dupla? As minhas amigas já haviam sido selecionadas, quem será?
            -...Você irá com Alex.
            Fiquei confusa. Faria trabalho com o menino que eu acabara de reparar? Como será que ele é? Chato? Malicioso? Mas o pior não foi às perguntas que surgiram na minha cabeça, a coisa mais estranha foi eu me sentir arrepiada e com um frio forasteiro na barriga. O que era isso?
            Interrompi meus pensamentos quando vi que o garoto misterioso já estava ao meu lado. Comecei a suar frio.
            - Olá! Sou Alex, seu nome é Bia não é?
            Fiquei paralisada ao ouvir sua voz linda e grave. Normalmente eu respon-deria a esta pergunta com grosseria. Eu diria: “Não ouviu a professora pronunciar meu nome, não?” Mas não consegui depois de ouvir um som tão lindo saindo de seus lábios. E antes que desmaiasse sem fôlego respondi:
            - Sim. – ouve um breve silêncio, e depois continuei – Então, como iremos fazer esse trabalho?
            Percebi que eu gaguejava.
            - Acho que podemos ir um na casa do outro. O que acha?
            - É, parece bom!
            Foi o máximo que consegui responder depois de ouvir uma voz tão linda de um jeito tão educado.
Depois de um tempo o sinal tocou e nos retiramos da sala. Fui caminhando em direção a minhas amigas, quando Alex se aproximou de mim.
Olhei para ele pelo canto do olho.
            - Você concorda em sairmos amanhã às sete horas ou você tem algum com-promisso?
Esta pergunta me alegrou. Levantei a cabeça na esperança de encontrar profundamente seus olhos pretos. Um grande desejo me gritava para dizer sim, mas a razão dizia não, respondi:
- É melhor você ir até minha casa, assim o Rodrigo não implica.
- Quem é Rodrigo? – ele perguntou unindo as sobrancelhas.
- Meu namorado.
- Claro! Você é a namorada do bonzão lá, né?
Sua voz saiu arrogante. Não entendi aquela antipatia que ele tinha com Rodrigo.
- Tem alguma encrenca com ele? – perguntei com uma voz mais alterada.
- Não exatamente. – disse ele com indiferença – Na verdade, todos os me-ninos daqui tem, né, ele é metido.
- Hum! – foi o máximo que pude responder.
- Então na sua casa que horas? – perguntou ele mudando de assunto.
- Pode ser às sete mesmo.
- Ta bom, até às sete!
Ele saiu depois de me dar um beijo no rosto, um beijo que me fez arrepiar.
Aproximei-me de Iza, Nani e Fernanda, elas me olharam sério e saímos andando juntas.
- O que foi aquilo? - perguntou Fernanda.
- O que? – rebati confusa
- “Até às sete!” – disse ela imitando a voz de Alex – E depois um beijo no rosto?
- Ata! Estávamos marcando o trabalho. – respondi naturalmente
- Sortuda! – cochichou Iza.
Olhei com indiferença para elas.
- Maliciosas! – respondi com um sorriso torto e fui de encontro com Rodrigo.

Depois de passar todas as outras aulas, fui para casa sozinha. Rodrigo tinha ficado para treinar os outros meninos para um campeonato na escola, então resolvi ir andando embora. Durante o caminho, fui refletindo sobre o trabalho que faria e a pessoa que foi escolhida para fazer dupla comigo. Alex, o menino lindo. Chacoalhei a cabeça tentando esquecer o rosto maravilhoso.
Depois de alguns minutos andando, cheguei em casa cansada. A empregada já havia feito meu almoço, comi junto com minha mãe e fui dormir. Passei o resto da tarde dormindo.

Após algumas horas, acordei com um ventinho na orelha.
- Oi dorminhoca! Vamos levantar? – disse Rodrigo depois de me acordar assoprando a minha orelha.
- Que horas são? – perguntei assustada.
- São cinco e meia da tarde. Por que, algum compromisso?
- Sim, tenho um trabalho com um colega hoje às sete.
- Ata. – disse ele, de cara fechada.
Descemos para a sala de minha casa e ficamos conversando lá por um longo tempo. Eu o ouvia falando como se estivesse prestando atenção, mas meus pensamentos estavam longes, rodando em volta do garoto belo. Foi assim por mais algumas horas, até que ficou tarde e ele teve que ir embora. Deu-me um beijo rápido e saiu.
- Boa noite, Bia, durma bem! – disse ele antes de sair
- Claro! Você também.
Quando ele abriu a porta deu de cara com Alex, já pronto para tocar a campainha. Ficaram se encarando por alguns instantes, até que rompi o silêncio.
- Alex!!! – falei animada.
Ele me respondeu com um lindo sorriso torto que me deixou tonta. Rodrigo me olhou feio depois saiu esbarrando em Alex.
- Entre, – disse entusiasmada, sem ligar para a situação que acabara de acontecer – temos muito a fazer.
- Claro! Licença! – disse ele educadamente
Minha mãe estava parada atrás de mim esperando para conhecer meu novo visitante.
- Alex, esta é minha mãe Carla, mãe este é meu amigo Alex. – eu os apresen-tei
- Olá senhora Vasconsellos é um prazer conhecê-la. – respondeu Alex mais educadamente do que sempre
- Oi Alex, por favor, somente Carla – disse ela rindo.
- Como quiser. – ele respondeu.
- Bom! Vamos ao trabalho. – eu interrompi.
- Vamos. – respondeu Alex – Boa noite Senh... Carla!
- Boa noite Alex. – disse minha mãe com uma piscadela maliciosa para mim.
            Subimos para o meu quarto. Espalhamos os papéis sobre a escrivaninha que havia lá, mexemos no computador e reviramos totalmente o meu quarto, tudo sempre com diversão. Era muito bom estar com ele.
Depois de pesquisarmos as coisas que precisávamos começamos a escrita, o trabalho era sobre “atos reflexos” na matéria de biologia. Fiquei impressionada com a caligrafia perfeita que ele tinha, era simplesmente linda:

Quando a luz solar atinge nossos olhos logo o fechamos pelo reflexo obtido na pupila, isto é caracterizado pelo ato reflexo. Quando fechamos nossos olhos rapidamente ou algum objeto está próximo a nossas pálpebras, o reflexo obtido é o de fechá-los, ocorrendo os atos reflexos, que se caracteriza pelo simples pestanejar”.

            Eu estava realmente encantada por aquela letra magnífica, quando fui interrompida dos meus pensamentos por sua bela voz:
            - Acho que já está muito tarde, devo ir antes que caio de sono.
            - Não, não vai – disse eufórica – temos quartos de hóspede aqui, você pode ficar!
            - Não, acabei de conhecer sua casa e vou me instalar aqui? De jeito nenhum, amanhã nos vemos na escola e eu volto de tarde ou...
            - Ou...? – insisti que ele completasse
            - Você vai lá em casa. Eu irei adorar.
            - Claro, vou sim, quero conhecer sua família.
            - Ótimo!!! – comemorou ele – Agora vamos arrumar esta bagunça.
            - Claro que não deixa aí! – mas ele já estava arrumando.
            Ajudei-o a terminar com a bagunça – coisa que Rodrigo jamais faria – e descemos para a sala em direção à porta.
            Quando chegamos à sala encontramos o meu pai, e Alex fez questão de se apresentar.
            - Senhor Vasconellos, prazer, sou Alex, um colega de sua filha.
            - Prazer Alex. – disse meu pai analisando-o – Estão estudando?
            - Sim. Acabamos de fazer um trabalho em dupla
            - Ata.
            - Bom, desculpe, mas, tenho que ir, já está tarde. – disse Alex como sempre, educado.
            - Claro Alex, boa noite! – respondeu minha mãe com delicadeza – Adorei você, volte sempre que quiser.
            - Tudo bem. – disse ele já corando. – Boa noite!
            - Boa noite! – responderam meus pais.
            Saí junto com ele, ficamos um tempo no jardim conversando, quando passou um táxi e ele o chamou. Nos despedimos e ele me deu outro beijo no rosto que me fez tremer.
            - Até amanhã Bia!
            - Arrã! – foi o que consegui dizer ainda tremendo.
            E ele se foi.
            Entrei em casa e minha mãe ainda estava na sala me esperando, com um olhar malicioso.
            - O que foi? – perguntei
            - Nada! – ela respondeu – Por que, deveria haver alguma coisa?
            - Não sei, você está me olhando estranho.
            - É que...
            - Ih, sabia, tem alguma coisa. – interrompi.
            - É que... Eu gostei do garoto. Ele é educado, bonito, simpático e parece inteligente...Melhor do que o...
            - Mãe! Não viaja ta bom? – interrompi outra vez – É apenas um colega.
            - Não falei nada. Você me interrompeu. Mas ele é melhor do que o Rodrigo. Pronto, falei!
            - Boa noite mãe. – ignorei.
            Deitei-me rapidamente e dormi logo em seguida. Tive um sonho estranho àquela noite. “Era em um lugar claro e bonito, eu estava correndo por sobre o jardim aberto, florido e cheio de árvores, mas percebi que não estava sozinha. Alex também estava lá. Ficamos conversando e rindo, como se fossemos velhos amigos. Mas de repente ficamos nos olhando em silêncio esquecendo de todo o resto, quando ele veio em minha direção e ficou a alguns centímetros do meu rosto. Seu hálito era doce e me fazia delirar. Ele se aproximou mais e me deu um beijo devagar e delicioso. Ficamos mais próximos um do outro...” E fui interrompida pelo barulho do meu despertador.
            Continuei deitada mesmo depois do despertador tocar, fiquei pensando por um tempo naquele sonho. Não fazia sentido. Eu acabara de conhecer o garoto e já estava fantasiando com ele? O que estava acontecendo comigo? O que significou aquele sonho? Levantei antes de me afundar mais nas perguntas.
            A manhã estava agradável – nem quente nem frio – corri para a janela e vi que Rodrigo não estava lá me esperando. Pensei que o motivo era o horário, pois, estava cedo. Então fui me arrumar com calma. Os minutos passaram e nada dele aparecer. Estranhei.
            - Mãe, o Rodrigo não está ai embaixo? – perguntei já nervosa.
            - Não Bia. Acho que ele não vem hoje. Ele não te avisou de nada?
            - Não! – saí correndo esperando não chegar atrasada.
            Peguei o skate, na intenção de andar um pouco mais depressa.
            Quando cheguei, à aula já havia começado há vinte minutos, então não pude entrar. Fiquei esperando até que tocasse o sinal para o intervalo da primeira para a segunda aula.
            Enquanto o sinal não tocava fiquei lendo um romance para me distrair – Crepúsculo. Estava muito concentrada na leitura quando fui interrompida, levando um grande susto.
            - Resolveu matar aula agora?
            A voz era tão grave que me fez perder a respiração por alguns segundos, e respondi antes que fizesse papel de surda.
            - Ah, não, cheguei atrasada.
            - Ata. Te assustei? – perguntou Alex educadamente
            - Não exatamente! – respondi rindo – Já deu o sinal?
            - Sim, daqui a pouco é a segunda aula.
            - Nossa! Me distraí mesmo.
            - É!
            Ele se sentou ao meu lado e começamos a conversar. Seu jeito gentil me fazia pensar: Será que todos os meninos eram iguais a Alex e só Rodrigo que era metido e grosso, ou todos eram iguais a Rodrigo e só Alex que era modesto e educado?
O sinal tocou e nós entramos. Passou todas as aulas e eu ainda não tinha visto Rodrigo. Comecei a ficar preocupada.
A aula foi tranquila, sentei com Fernanda, bem distante possível de Alex. Aquele sonho tinha me assustado, eu ainda não entendera, por isso preferi distância.
            Passou às horas e começou a ficar tarde. Passei na casa de todos os amigos de Rodrigo depois das aulas, andei de skate por vários bairros para procurá-lo, mas não o encontrei. Até que deram sete horas e fui fazer o trabalho na casa de Alex.
            Ele me esperava em frente à minha casa, sentado na varanda conversando com minha mãe. Ela realmente gostava dele, cheguei e o cumprimentei. Fomos juntos para lá.
Não ficava muito longe. Apenas alguns quarteirões. Chegamos em uma casa bonita, mas não maior do que a minha. Fomos recebidos por uma menina alta de cabelos pretos bem repicados. Vestia roupas muito refinadas e tinha um estilo muito diferente, acho que era estilo estrangeiro. Ela era bonita e muito educada também, parecia irmã dele.
            - Oi! – me disse ela – Prazer em te conhecer Bia, sou Gabrielli, mas me chame de Gabi.
            - Oi, prazer Gabi. – respondi um pouco tímida.
            - O Alex sempre fala de você.
            - Gabrielli!!! – manifestou Alex depois de corar.
            - Ta bom. Não é sempre, porque ele te conheceu ontem, mas é desde ontem. – acrescentou ela ainda rindo
            Comecei a corar também.
            - Bom, vamos ao trabalho. – disse Alex rompendo o clima de timidez entre nós.
            - Vamos. – respondi.
            - Bom trabalho para vocês! – falou Gabi educadamente
            - Obrigada. – respondi
            Fomos ao quarto dele que ficava no segundo andar. Nos divertimos e estudamos. E fiquei impressionada de como me sentia bem quando estava com ele, até mesmo com um namorado desaparecido. Com ele eu me sentia completa, embora conhecesse ele há pouco tempo.
            Depois de algumas horas Gabi apareceu no quarto e nos deu alguns lanches.
            - Eba! Valeu Gabi, te amo viu irmã. – disse Alex.
            - Ah, sei. Quer um pouco Bia? – respondeu Gabi
            - Sim, quero.
            Ficamos conversando por várias horas até que ficou tarde. Já passava das dez da noite e eu tinha que ir para a casa.
            - Nossa! – agitei – Esqueci da hora, tenho que ir.
            - Não! – exasperou Alex – Quero dizer... Fica mais um pouco?
            - Não dá, meus pais ficarão preocupados.
            - Então Tchau! – disse ele com a expressão triste.
            - Tchau Bia! – falou Gabi.
            - Tchau. – respondi sorrindo.
            Eles me levaram até a porta e como aconteceu na minha casa, encontrei os pais deles sentados na sala.
            - Mãe, pai, essa é Bia, minha amiga da escola. – ele nos apresentou.
            - Prazer Bia. – disse a mãe dele – Sou Amanda e este é Renan
            - Prazer. - respondi delicadamente.
            O pai dele não era muito bonito. Um pouco gordinho e alto demais. Mas a mãe dele era linda. Cabelos claros iguais aos de Alex. Um sorriso e olhos também parecidos. E claro, os dois muito educados.
            Despedi-me deles e saí. Alex me acompanhou e me levou até perto de minha casa. Depois nos despedimos com um abraço e ele me deu um beijo no canto do rosto, quase perto da boca. Aquele beijo me fez lembrar o sonho, e estremeci.
            - Sabe, – ele se virou e começou a falar – fiquei muito feliz por estar fazendo este trabalho com você.
            Senti minhas bochechas ficarem quentes, com certeza eu estava corando.
            - Também estou gostando de fazer trabalho com você. – pior que era verda-de, eu estava adorando aquilo.
            - Só espero que nossa amizade continue depois disso. – sua voz era melancólica.
            Abaixei a cabeça. Também queria que nossa amizade durasse. Ele me completava.
            Alex se aproximou de mim e me deu outro beijo no rosto. Depois se foi.
            Entrei em casa e Rodrigo estava sentado na sala conversando com meu pai. Ele me olhou frio e fez um gesto com a cabeça me indicando a escada. Subi e ele foi logo atrás, entramos no meu quarto e ele o trancou. Fiquei assustada e o encarei.
            - Então, como foi o dia com seu amiguinho? – perguntou ele com indiferen-ça.
            - Que conversa louca é essa agora, Rodrigo? E você me deve explicações. Onde esteve o tempo todo?
            - Você quer que eu dê explicações? Eu? – falou ele de repente gritando.
            - Baixa a voz comigo. – falei com raiva.
            Ele me olhou com os olhos vermelhos e com estupidez me jogou em cima da minha cama.
            - Me fala! O que você ficou fazendo ontem e hoje com aquele esquisito? – ele ainda gritava, apontando o dedo perto de meu rosto.
            - O Alex? Estamos fazendo um trabalho escolar... Que idiotice é essa agora? Porque não veio me buscar hoje de manhã?
            - Não me interessa o nome dele. Idiotice nada. Não vim te buscar porque achei que seu amiguinho viria.
            - Ele só tem 16 anos, não pode dirigir...
            - Se não fosse isso ele viria, né? – ele me interrompeu ainda gritando.
            - Para de gritar Rodrigo, nunca te vi assim. O que está acontecendo?
            - Está acontecendo que aquele esquisitinho está me deixando louco. Você o conheceu ontem e já o vi aqui, e agora você foi a casa dele? Acha isto normal?
            - Para quem está fazendo um trabalho sim. – respondi indiferente
            - Para quem está namorando não! Não quero ver você saindo com ele, não quero fama de chifrudo. – disse ele, agora apertando meus pulsos.
            Minha mãe interrompeu nos chamando para ir jantar e vê a situação com os olhos arregalados.
            Fomos para a cozinha, ele ainda com raiva. O clima na mesa foi pesado. Minha mãe encarando Rodrigo, ele me observando, eu o ignorando e meu pai nos olhando com cara curiosa.
            Depois do jantar todos nos levantamos e saímos da mesa, ele foi se direcionando a porta de saída só se despedindo dos meus pais. Fui atrás e antes que eu falasse alguma coisa ele se virou:
            - Não se preocupe, venho te buscar amanhã. – disse ele olhando para o chão.
            - Ta bom. – respondi indiferente.
            - Desculpa ta? – disse ele me puxando para perto. – Não sei o que foi aquilo, me exaltei demais.
            - Ta. – respondi com frieza.
            Ele desistiu e saiu só me dando um selinho rápido.
            Corri para o telefone, eu queria conversar com Nani, ou melhor, desabafar. Ela atendeu feliz:
            - Bia! Que milagre, você me ligou!
            Minha vontade era de responder: “Isso não se chama milagre, se chama telefone”.
            - Oi Nani. – respondi menos animada.
            - O que foi? Aconteceu alguma coisa? – eu só ligava para ela quando alguma coisa diferente acontecia?
            - Sim, o Rodrigo teve um surto. Quase me bateu, só por ciúmes.
            - Ciúmes de quem?
            - Do Alex.
            - Ah, fala sério Bia. Até eu ficaria com ciúmes. Vocês se conheceram há pouco tempo e já estão muito grudados.
            - Até você Nani? Argh. – Desliguei o telefone em sua cara.
            Peguei o skate e saí andando pela rua até chegar em uma pracinha. Encontrei algumas rampas e obstáculos perfeitos para manobras, fui para lá. Caí várias vezes, já que minha atenção não estava no que eu fazia e sim no que ouvira de Nani.
            Aquilo não fazia sentido, estávamos grudados daquele jeito por causa do nosso trabalho, precisávamos estar sempre juntos. Será que eles não entendiam?
            Olavo chegou na praça com o skate prata na mão. Ele tinha os cabelos castanhos raspados, o corpo esbelto e algumas tatuagens pelo corpo. Quem o visse jamais diria que era gay, mas era, tinha um namorado chamado João.
            Eu gostava dele, era muito bom ter um amigo gay. Ele sempre me entendia.
            - Olá Bia. – sua voz era um tanto grave.
            - Oi. – falei desanimada.
            Olavo parou ao meu lado e nós nos sentamos em um banco logo atrás.
            - Aconteceu alguma coisa?
            Não estava muito a fim de falar daquilo.
            - Posso te fazer uma pergunta?
            Ele assentiu.
            Respirei fundo antes de começar:
            - Se você conhecesse um rapaz, achasse ele a pessoa mais linda do mundo. Um dia vocês se aproximam por causa de um trabalho escolar. Tudo que ele faz te deixa abismada e todos começam a dizer que tudo parece mais que amizade. O que você me diz de tudo isso?
            - Se a pessoa sentir um frio a cada vez que ele toca, um delírio a cada sorriso e um desejo de vê-lo, imenso, diria que tem um amor muito grande aí.
            Ri comigo mesma
            Fiquei algumas horas lá com Olavo. Não toquei mais no assunto, até que ficou tarde e voltei para casa. Entrei sem falar com ninguém e fui me deitar.
            Naquela noite, não consegui dormir.

Capítulo 2



2- ALGO QUE EU JAMAIS SENTIRA


            Levantei com dor nos braços, e com os olhos inchados. Olhei-me no espelho e me senti péssima. Estava pálida, com olheiras e pior, com os pulsos roxos.
            Olhei pela janela e lá estava Rodrigo em seu novo brinquedinho que havia ganhado do pai milionário – o maior banqueiro da cidade – um BMW 118i prateado.
            Desci para me arrumar, tomei o café da manhã e saí. Entrei no carro sem falar nada. Ficamos em silêncio por um longo tempo até que me manifestei:
            - Não tinha nada mais chamativo não? – perguntei irreverente.
            Ele deu risada e respondeu com bom humor:
            - Sou humano também, quero me exibir um pouquinho.
            Nós rimos e fomos para a escola.
            Ele estacionou ao lado de um Vectra que o professor Bruno exibia, mas que logo foi esquecido por todos que passaram a admirar o BMW ali.
            - Fez isto de propósito, né? – perguntei rindo.
            - Sim, fiz, amei meu presente e quero exibi-lo.
            - Precisa desfazer do professor assim? Coitado.
            - Rá! Rá! – ele deu uma gargalhada.
            Saímos juntos como se nada tivesse acontecido ontem. Entrei na sala e sentei longe de Alex, perto da Nani. Eu estava a fim de provar para todos que Alex era só um colega de classe.
             Ficamos conversando durante muito tempo, até a hora em que a professora Lucia entrou e ordenou que sentássemos na dupla do trabalho. Ele se sentou ao meu lado rapidamente, mas evitei olhar para seu belo rosto. Não queria que ele me visse de olho inchado. Coloquei a toca da blusa sobre a cabeça, assim seria mais fácil esquecer ele ali. Ficamos quietos por uns instantes até que ele interrompeu:
            - Então! Faremos o trabalho aonde hoje?
            - Não sei, você quem sabe. – respondi sem olhar em seus olhos negros.
            Ele não falou mais nada, talvez tivesse percebido meu humor sombrio. Estiquei mais a toca sobre o rosto, isso ele notou:
            - O que foi? Você está estranha.
            Encolhi-me e disfarcei, mas foi inútil, ele logo percebeu um problema em mim.
            - O que é isto em seu pulso? Ele está roxo.
            Percebi que eu tinha jogado os braços em cima da mesa, mostrando o grande hematoma em meus pulsos.
            - Não é nada. Caí ontem. – tentei mentir.
            Puxei as mangas da blusa por sobre o hematoma.
            - Isso não é marca de tombo, e sim de um aperto muito forte. – disse ele, me analisando.
            - Não, é serio. Caí da escada.
            - Arrã! – disse ele desistindo
            Ele continuou fitando meus pulsos com uma expressão angustiada, como se tivesse culpa.
            Parei de tentar decifrar sua expressão. A cada minuto mudava. Uma hora ele estava revoltado, outra deprimido. Eram irreconhecíveis às vezes.
            Achei que ele havia desistido, mas logo recomeçou:
            - Foi ele não é? Aquele idiota?
            - Não sei do que você está falando. – respondi olhando para frente
            - Olha para mim!!! – exigiu ele com voz grossa.
            Eu olhei e ele abaixou a cabeça.
            - Ele não gostou de você ter ido lá em casa, né? – perguntou com expressão vazia.
            Eu tinha alternativa a não ser dizer a verdade?
            - É. – respondi.
            - Ele te bateu?
            - Não, só me segurou com força.
            - Isto também não é bom.
            Fiquei quieta o resto da aula. E pude ver pelo canto do olho que ele encarava fortemente o meu pulso, sua expressão era de raiva e lamentação.
            - O que está pensando? – perguntei rompendo o silêncio.
            - Que ele não te merece.
            - Só? Você não ficou este tempo todo só pensando nisto.
            - É! Você está certa, tem mais...
            - Então fala. – falei olhando para baixo.
            - Eu estava me perguntando... Por que está com ele?
            - Eu gosto dele! – neste momento parece que um nó apertou a minha garganta.
            Ele ficou em silêncio até bater o sinal. Quando tocou ele se retirou sem se despedir, nem olhar para trás. Simplesmente saiu. Isto me fez ficar de mau humor, e também saí sem falar nada. Fui embora sem me despedir das minhas amigas, ou até mesmo de Rodrigo.
            Eu estava com uma raiva imensa, queria descontar no primeiro que me aparecesse, mas não sabia o porque. Não havia motivos para tanta raiva, só se tivesse haver com Alex. Ri comigo mesma.
            Era impressionante como eu estava me rendendo muito fácil para aquele estranho que conhecera há poucos dias.
Cheguei em casa chutando tudo, com a maior cara feia.
Vi meu skate encostado no canto da parede da sala, peguei-o e saí sem rumo, decidida a voltar só às sete. E fiquei assim o resto da tarde, até chegar sete horas.
Enquanto andava pela cidade, fiquei refletindo: Por que toda vez que Alex me tocava, falava comigo ou qualquer outra coisa dele me arrepiava? Por que com ele eu esquecia meus problemas, inclusive Rodrigo? Por que eu o estava comparando com meu namorado? Não dava mais para continuar assim, eu teria que dar um basta. Iria me afastar de Alex.
Quando coloquei esta hipótese uma estranha dor no peito me atingiu. Eu estava dependente dele, não poderia esquecê-lo. Já era tarde demais! Algo estava acontecendo... Dentro de mim.
Voltei para casa e estranhamente fiquei esperando ele chegar. A campainha tocou e minha mãe atendeu, pude ouvir do meu quarto uma voz encantadora, falando educadamente:
            - Boa noite Dona Carla. – aquela voz me animou.
            - Boa noite! Só Carla lembra? – minha mãe respondeu com entusiasmo.
            - Claro! Só Carla. – repetiu ele – A Bia está aí?
            - Sim! Pode subir, ela ficará feliz em vê-lo, está mal humorada o dia inteiro. – cochichou ela.
            Fez silêncio por alguns segundos e depois alguém falou atrás da minha por-ta, com uma voz gentil e grave:
            - Posso entrar?
            - Alex? Claro que pode. – falei sem disfarçar minha felicidade. – Pensei que estava bravo comigo...
            - Bravo não! – disse ele se sentando no chão ao meu lado. – Só chateado, pensei que você fosse diferente.
            - Como assim? – perguntei tentando entender sua expressão.
            - Você só está com ele porque ele é popular. Ou tem outra coisa aí no meio, posso ver em seus olhos que você não gosta dele.
            - Me disseram que você era inteligente, mas não sabia que era tanto.
            - Então tem alguma coisa ai, né?
            - Sim. – afirmei quase chorando. – Meu pai. Ele quer que a gente se case. Diz ele porque acha o Rodrigo um bom rapaz, mas eu sei que é só pelo dinheiro que ele tem guardado no banco. E também, no começo, era divertido namorar o menino mais cobiçado entre as meninas, mas agora não é mais.
            - Por quê? – perguntou ele, segurando a minha mão.
            - Porque agora eu tenho que esconder meus reais sentimentos. – respondi involuntariamente.
            - Fale para o seu pai o que pensa.
            - Eu gostaria, mas... – neste momento Rodrigo entrou no quarto e nos viu, sentados no chão, quase abraçados.
            - Ele é só um amigo, né? – gritou ele com os olhos vermelhos.
            Levantei assustada e antes que eu dissesse algo ele veio para cima de mim, Alex o segurou, mas ele continuou gritando:
            - Bia. Estou cansado disso, se livre dele agora!
            Minha mãe apareceu já insinuando para Rodrigo:
            - De novo Rodrigo? – gritou ela – Ontem você estava apertando-a e hoje quase batendo.
            - Não estou batendo. – protestou ele.
            - Porque o Alex está te segurando. Se retire Rodrigo, por favor! – ordenou ela.
            Ele saiu jogando Alex, que bateu forte no chão. Minha mãe o seguiu.
            - Desculpe pela situação constrangedora. – eu disse, com uma expressão vergonhosa para Alex.
            - Não foi culpa sua! – disse ele me puxando para seus braços. – Vamos terminar o trabalho?
            - Sim.
            Continuamos nos divertindo com o trabalho e terminamos naquele dia.      Estava cedo então resolvemos passear um pouco para esquecer os problemas daquele dia. Fomos até uma praça que tinha perto de casa. Aquele dia estava calor, agradável para andar. Sentamos em um banco e começamos a conversar.
            - Será que iremos tirar uma nota boa com esse trabalho? – perguntou ele puxando assunto.
            - Acho que sim, modéstia parte, está muito bom.
            Ele riu.
            - Desculpa por hoje ta bom? – falei sussurrando.
            - Que nada, esquece! – ele me abraçou.
            Estávamos sentados a alguns centímetros de distância, ele se aproximou e perguntou sem muito entusiasmo:
            - E agora, o que você vai fazer? Terminar ou desculpar ele outra vez?
            - Não sei. Tenho medo de terminar e meu pai se alterar e também tenho medo de desculpá-lo e ele tornar a fazer.
            - Ele é do tipo violento e parece estar se segurando. Já pensou se ele se revoltar e descontrola?
            - Já. E é disso que tenho medo.
            Ele me abraçou mais uma vez. Começou a esfriar na praça e decidimos ir embora. Estava escuro, então ele me levou até perto de minha casa e depois seguiu sozinho para a própria casa.

            De manhã um carro preto estava parado em frente a minha casa. Pensei que era Rodrigo, mas logo vi que era um Celta. Ele nunca viria de Celta. Me arrumei e saí correndo para ver quem era.
            Alex estava no banco do carona e Gabi – a irmã, diferente, dele – no volante.
            - Oi, vieram me buscar hoje? – perguntei com irreverência.
            Percebi que eu acordara mais feliz. Minha voz parecia mais otimista.
            - É, pensei que seu namorado não viria e acertei. – disse Alex numa voz grave.
            - E para isso precisava incomodar a Gabi? – falei já entrando no carro.
            - Que incomodar nada. Já ia sair mesmo, só aproveitei. – respondeu ela educadamente.
            - Então obrigada. – agradeci.
            Chegamos na escola, agradeci Gabrielli mais uma vez por ter poupado uma caminhada que me faria chegar atrasada. Alex me esperou sair do carro e entramos na sala juntos.
            A primeira aula foi de biologia então tínhamos que apresentar o trabalho. Notei que ele não estava muito feliz com isso.
            Fizemos uma boa apresentação. Nós dois ganhamos notas altas, as melhores da sala. Mas mesmo assim ele estava com a expressão triste.
            - O que foi? – perguntei por fim, quando voltamos aos nossos lugares. Estávamos sentados juntos.
            - Estou chateado. – ele respondeu fitando o chão.
            - Por quê? Foi por ontem? – eu tinha certeza.
            - Não. Porque não tenho mais desculpa para ficar perto de você. Já que o trabalho terminou.
            As palavras dele me fizeram corar, mas fiquei muito feliz. Parecia que ele pensava do mesmo jeito que eu.
            Algo fez minha espinha tremer, os pelos dos meus braços se eriçaram e meu estômago se revirou, como se borboletas voassem dentro de mim.
            - Tem sim. Podemos continuar saindo. Você é meu melhor amigo.
            Melhor amigo! Rá! Nunca vi um melhor amigo ter um efeito tão modificador dentro de alguém.
            - Ah! – foi o máximo que ele respondeu.
            - Vou a sua casa hoje. Pode? – eu sugeri tentando mudar o clima entre nós.
            - Claro que pode, vai sim. – respondeu ele animado – Mas e seu namorado?
            - Esquece ele. – eu disse rindo.
            Depois da aula, passei a tarde com minhas amigas na escola. Alex não estava perto, na verdade eu nem sabia onde ele estava. Só sabia que ele ainda estava no colégio, porque entrara na secretaria e ainda não tinha saído – eu já o estava vigiando.
            Estávamos no pátio conversando alegremente até Rodrigo aparecer e me chamar. Andamos até o jardim enfrente ao pátio.
            - Desculpe por aquilo que fiz ontem, foi sem pensar. – disse ele olhando para o chão.
            - De novo? Até quando você vai fazer besteira e depois pedir desculpas? Não aguento mais.
            - Como é? Você não está...
            - Estou. – interrompi – Termino com você Rodrigo.
            Falei sem pensar de verdade, mas vi que minha decisão estava tomada. Não dava para continuar com ele. Eu não queria.
            Ele me olhou com raiva e manifestou:
            - Você quem sabe. Só aguente as consequências.
            - É uma ameaça? – perguntei nervosa, mas ele saiu sem responder.
            Fiquei alguns instantes do mesmo jeito que estava quando conversava com Rodrigo. Eu nem acreditava que tinha terminado com ele.
            Acabou!
            A única coisa que eu pensava.
            Virei-me para voltar ao pátio, quando vi Alex parado a alguns metros de mim. Andei em sua direção e me encostei ao seu peito, ele me abraçou forte.
            Impressionante que eu não queria chorar – era o que eu costumava ver nos filmes e novelas, – apenas alívio, por ter terminado com Rodrigo e por estar nos braços de Alex.
            - Foi o melhor que fez. – ele sussurrou – Você quer ir para casa?
            - Não. Ainda quero ir para a sua casa. – minha voz era eufórica.
            - Então vamos. – disse ele com um sorriso torto que me fez arrepiar.
            Fomos andando, conversando sobre o nosso dia e assuntos que surgiam do nada. Meu sorriso estava sempre vivo, já o dele estava triunfante e irresistível.             Quando chegamos na casa dele encontramos Gabi assistindo a um filme.
            - Querem assistir Titanic? – perguntou ela.
            - Claro. Adoro esse filme – falei animada.
            - Tem certeza disso? Ela é melosa. – perguntou Alex, com um sorriso malicioso.
            - Não entendi. – protestei.
            - Você vai ver. – disse ele rindo.
            Depois de uns minutos assistindo ao filme eu entendi o que ele quis dizer com melosa. Gabi estava chorando. Eu e Alex rimos, mas depois me vi chorando também. Ele bufou:
            - Vamos subir para o meu quarto?
            - É melhor. – respondi ainda chorando.
            Nós subimos para o quarto dele e lá começamos a conversar. Estávamos sentados em cima de sua cama. Algumas vezes ele deitava e apoiava a cabeça no braço, o que o deixava parecendo uma escultura. Tive de controlar muito meus pensamentos perto dele, minha expressão poderia me entregar.
            As horas passavam muito rápido quando eu estava com ele, e logo ficou tarde.
            - Tenho que ir. – falei com tristeza.
            - Não precisa ir cedo hoje, a Gabi te leva, e também, você não tem mais namorado então não precisa se preocupar.
            Fiquei sem graça com a colocação que ele fez, e ele percebeu:
            - Te chateei?
            - Não exatamente. Só me lembrei que tenho que encarar meu pai quando chegar.
            Eu segurava a ponta de sua camiseta enquanto ele falava.
            - Não pense nisso! – pediu ele me puxando para perto – Posso te fazer uma pergunta?
            - Pode sim.
            Ele se levantou e ficou sentado de frente para mim, suas mãos em minhas costas. Meu rosto estava apenas a dez centímetros do seu.
            - Aquilo que você falou sobre eu ser seu melhor amigo, é verdade?
            Pensei bem antes de responder.
            - Sim.
            - Só amigos? – ele se aproximava mais.
            Resolvi dizer a verdade.
            - Acho que não. Não sei de mais nada.
            De repente estávamos próximos um do outro, apenas alguns centímetros nos separava. E ele se aproximava cada vez mais.
            Logo estávamos a quatro centímetros um do outro. Eu já podia sentir seu hálito doce em meu rosto. Sua mão deslizava em minha cintura, e antes que eu percebesse, seus lábios estavam nos meus. Seu beijo era bom, inigualável, me fez ficar tonta. Minhas mãos acompanhavam o desenho de seu pescoço. Meu coração estava a mil.
            Depois de alguns minutos naquele beijo tive que parar, antes que des-maiasse. Minhas mãos ficaram em cima das suas que ainda estava em minha cintura. Estávamos apenas com a testa encostada, ele de olhos fechados.
            - Te amo. – disse ele depois de alguns minutos em silêncio.
            A felicidade me inundou. Nunca tinham falado aquilo para mim, a não ser meus pais. Até mesmo Rodrigo que era meu namorado há alguns meses, nunca falara que me amava.
            - Te amo. – respondi ainda tonta.
            Percebi a verdade em minhas palavras. Eu o amava. Naquele momento, senti como se não existissem problemas. Meu mundo agora era só eu e ele.
            - Tenho mesmo que ir. – rompi o silêncio – Se pudesse ficava para sempre aqui, mas não posso.
            - Ta bom. – respondeu ele ainda com a testa encostada na minha – Vou pedir para a minha irmã te levar. – ele se levantou.
            Descemos as escadas de mãos dadas e encontramos Gabi ainda chorando com o filme.
            - Esse filme ainda não acabou? – perguntou ele com a sobrancelha erguida.
            - Coloquei de novo. – respondeu ela ainda chorando
            - Aphf! – bufou ele. – Vamos levar a Bia para casa?
            - Vamos sim. – ela se levantou enxugando as lágrimas.
            Fizemos todo o caminho até minha casa em silêncio. Eu ainda delirava pelo beijo. Reparei que ele me olhava pelo retrovisor, tentei sem sucesso, disfarçar. Quando chegamos, me despedi dos dois e entrei com um enorme sorriso. Assim que entrei encontrei Rodrigo sentado no sofá junto ao meu pai.
            - O que faz aqui? – perguntei com ignorância.
            Eles pararam de conversar e passaram a me encarar.
            - Que educação é esta minha filha? – disse meu pai – Eu que o chamei.
            - Então ta, tchau.
            Comecei a subir as escadas.
            - Espere. – Paulo manifestou – Quero que vocês dois conversem.
            - Não quero! Obrigada.
            - Não estou pedindo. – falou ele engrossando a voz – Estou ordenando!
            - Pai! Terminei o nosso namoro e pronto, acabou.
            - É por causa daquele esquisito, não é? – falou Rodrigo se levantando.
            - E se for? O que você vai fazer? – desafiei-o.
            - Não deixarei barato.
            - Rodrigo, admita, perdeu playboy! – e saí correndo escada acima.
            Passei pela porta do quarto de meus pais e minha mãe estava lá, e como sempre, reparou em minha expressão. Ela me seguiu até meu quarto, sentou na cama e começou a falar:
            - Então, que felicidade é esta?
            - Não estou feliz, da onde você tirou isto? – era impressionante como minha mãe conseguia perceber as coisas.
            - Está sim, e tenho certeza que o Rodrigo não tem nada a ver com isto.
            - É, não tem. – admiti.
            - Então quem é?
            - Ta! Admito! É o Alex.
            - Sabia!!! Vocês se beijaram?
            - Mãe! – adverti – É.
            - Uau, ele é lindo minha filha, sem falar que é educado.
            - Né! Eu amo demais ele mãe. – e ficamos falando dele até dormir. Nunca tinha pensado que minha mãe pudesse ser minha melhor amiga.

            Levantei feliz de manhã, disposta a ir para a escola. Só para ver ele. Olhei pela janela e levei um susto. Havia um Celta e um Vectra no meu quintal. O Celta era da Gabi e o Vectra com certeza era do Rodrigo. Mas o que ele fazia aqui?
            Saí e fui em direção ao Celta, abri a porta e vi que Alex estava dirigindo.
            - Você pode ser multado sabia? – perguntei com humor.
            - Não vou não, meus pais me emanciparam.
            - Hã? – perguntei sem entender.
            Ele hesitou antes de responder. Não demonstrava, mas com certeza era por conta de minha exagerada burrice.
            - Agora, pela lei, sou maior de idade. – disse ele rindo – É um presente que meus pais resolveram me dar por minha aparente responsabilidade.
            - Ata! Parabéns.
            - Obrigado.
            Larguei a mochila em cima do banco e saí em direção ao Vectra.
            - Aonde você vai? – perguntou Alex confuso, se esticando pelo vidro.
            - Vai ver. É rapidinho.
            Abri a porta do carro e Rodrigo esta lá sorrindo, olhando pelo retrovisor a cara de Alex.
            - O que faz aqui? – perguntei com indiferença.
            - Nossa! – ele fez uma falsa expressão de humilhado – Vim te buscar.
            - Não precisa mais, não estamos namorando lembra? E deixa que o Alex faça isto.
            - Escuta! Precisamos conversar...
            - Tchau! – bati a porta e voltei para o Celta.
            Alex ria.
            Rodrigo cantou pneus e disparou com o Vectra envenenado dele.
            Chegamos na escola e saímos de mãos dadas. Rodrigo já havia chegado, ele e seus amigos nos encaravam. Entramos na sala ainda de mãos dadas e todos nos olhavam curiosos. Tivemos que sentar separados porque não havia lugares para duas pessoas vagos, eu sentei junto com Fernanda e Alex sentou com Lucas – um colega nosso.
            - O que significou aquilo? – perguntou Fernanda com estupidez.
            - O quê?
            - Você e Alex de mãos dadas, o que significa?
            A expressão dela era hostil, não parecia estar muito satisfeita, mas eu não entendi o porque.
            - Ata. Significa que estamos juntos.
            - Como assim “juntos”? – ela destacou a palavra com uma voz de nojo.
            - Isso aí, Nanda, estamos “juntos”. Quer dizer, eu o amo e ele me ama!
            Deixei bem clara a resposta.
            - Ridículo! – ela se levantou e saiu da sala sem ordem.
            - Não entendi. – falei sozinha.
            Fiquei refletindo por alguns minutos depois do toque do sinal, e saí logo em seguida. Passei pela mesa vazia de Alex e lá estava um papel amassado com a escrita de sua bela letra:
           
            “Nunca me senti tão completo, aquela pessoa que me faltava estava sempre ali, e eu nunca havia pensado que ela poderia ficar comigo, talvez porque eu não conhecesse este jeito meigo dela, mas agora conheço. Eu a amo mais que tudo. Tudo que fiz em minha vida, foi pensando em uma pessoa especial e agora parece que tudo que fiz foi em vão! Porque ela veio perfeita para mim                                     Te amo Bia!!”
           
Parecia que ele estava explicando alguma coisa para o colega ao lado dele, talvez ele perguntara, como Nanda fez.
Aquelas palavras me fizeram bem, que até esqueci o que acontecera com Fernanda.
            Saí e ele me esperava paciente na porta.
            - O que aconteceu? Por que está tão pensativa? – ele perguntou, passando o braço em minha cintura.
            - A Nanda, ela agiu estranha hoje e não sei porque.
            - Por que não pergunte a ela?
            - É, vou fazer isto.
            - Agora?
            - Não, quero ficar aqui com você agora.
            - Vamos sair daqui? – sugeriu ele me puxando para perto.
            Nós fomos para o jardim da escola, sentamos em um banco – ele sentado e eu deitada com a cabeça em seu colo – e ficamos conversando. Até quando Fernanda passou em nossa frente.
            - Você não vai falar com ela agora? – Alex perguntou
            - Devo? – rebati
            - Sim, deve!
            Eu me levantei e fui falar com ela, sem muito entusiasmo.
            - Nanda? Podemos conversar?
            - Não! – disse ela se levantando e saindo.
            Fiquei confusa outra vez. Ariane estava sentada com Nanda antes de ela sair e veio até mim.
            - Você não sabe o que tem com ela? – perguntou Nani.
            - Não. – respondi – Você sabe?
            - Sim.
            - O que é?
            - Desde o começo do ano ela foi apaixonada por Alex e nunca teve coragem de contar isto a ele e de repente, você na primeira vez que falou com ele já criou uma amizade forte e daqui a pouco está namorando, não é fácil para ela.
            - Mas eu não tenho culpa se me apaixonei por ele e ele se apaixonou por mim, ela deveria ter contado a ele.
            - Ela tentou, mas não conseguia, tinha medo de levar um fora, já que ele não aceitava nenhuma menina e de repente a amiga dela esta com ele? Você sabe que ela não gosta muito de você desde a história com Rodrigo.
            - Como assim? Alex, Rodrigo? Ela gostava dos dois?
            - Não, mas você namorou o menino mais desejado da escola, ela não gostou, e agora o menino que ela ama?
            - Então tudo é questão de afinidade? Quer dizer, ela está brava comigo só porque... – não consegui completar por tanta raiva que estava – Por favor, né. Não vou desistir do Alex só porque ela foi tonta em não se declarar para ele.
            - Você quem sabe. – disse ela se retirando
            - Eu o amo ta bom? Não posso viver sem ele.
            Ela baixou a cabeça e saiu. Alex ficou me analisando de longe, eu fui em direção a ele.
            - Então, descobriu o que há com ela?
            - Sim, ela gosta de você.
Ele riu e se virou para mim
            - Mas ela vai ter que entender que eu te amo.
Aquelas palavras me arrepiaram, me aproximei dele. Ele se encostou a mim e me beijou outra vez. Vi-me amolecer em seus braços e ficar tonta outra vez. A única pessoa que conseguia fazer isto comigo.
- Também te amo muito! – eu disse depois do beijo.
À tarde com ele passava rápido. Fomos embora no Celta e ele me deixou na porta de casa. Ficamos parados por um tempo no jardim, resolvi descer pensando que ele me seguiria, mas não aconteceu.
- Não vai entrar? – minha voz era confusa.
- Será que seu pai irá gostar? – ele olhava pelo para-brisa sem ver.
- Ele não está, só minha mãe.
Ele desligou o motor e saiu, deu a volta e abriu a porta para mim.
- Então vamos! – disse ele com seu sorrisinho torto que me deixava tonta.
Entramos e vimos minha mãe na cozinha.
- Boa noite...Carla.
- Boa noite Alex.
- Oi mãe. – falei irreverente.
Sentamos no sofá da sala se estar e ficamos conversando por horas. Minha mãe não reprimia o carinho que tinha com Alex. Uma perfeita puxa-saco. Foi tudo muito calmo, até meu pai chegar.
- O que ele faz aqui? – perguntou meu pai se referindo a Alex.
- O que é isto Paulo Ricardo? Esqueceu a educação no trabalho? – perguntou minha mãe constrangida.
- Eu já estou de saída. – afirmou Alex.
- Não, fica! Ignore meu pai. – implorei.
- Claro, vamos ignorar o homem que só quer o bem da filha! – provocou meu pai.
- Se bem para você é alguém infeliz, então eu estava mais que bem. – afirmei para meu pai.
- Você ainda é nova. Não entende o que é bom na vida.
- E não será você quem vai me ensinar.
- Você está uma menina muito ignorante, isto que dá ficar se misturando com essa gente.
- Chega! – falou Alex – Boa noite Dona Carla, Boa noite Bia, amanhã a gente se vê.
- Parabéns. – falei com provocação para meu pai.
Eu o segui até o jardim. Ele me abraçou e se virou.
- Desculpe pelo meu pai. – falei de cabeça baixa.
- Não é nada, já estava esperando.
Ele me deu um beijo, que mais uma vez me deixou tonta.
- Te amo. – disse ele e saiu.
- Também – respondi baixo.
Entrei em casa. Minha mãe e meu pai estavam discutindo, – com certeza por minha causa – fui para meu quarto e ignorei a briga.

Naquela noite tive um sonho estranho. “Eu estava naquele jardim outra vez, mas agora sozinha, eu sentava em cima das flores mortas e começava a chorar. Existia um vazio dentro de mim, a única coisa que eu tinha era aquele bilhete amassado que achara na mesa de Alex, eu o usava para me aliviar da dor que havia em mim, mas parecia que só piorava”. Acordei chorando no meio da noite e minha mãe veio ver o que estava acontecendo.
- O que foi minha filha?
Demorei alguns instantes para responder.
- Tive um pesadelo, nada demais.
- Ta bom, está com fome? Você não jantou ontem.
- Não. Só estou com sono.
- Ta, durma bem. – ela saiu.
Voltei a dormir e desta vez não tive nenhum sonho.

Acordei de manhã e o dia estava bonito, finalmente era sábado. E melhor, era meu aniversário, estava fazendo 17 anos. Desci as escadas com animação e fui recebida por cantigas de aniversário, Ali estavam minha mãe, Alex, Gabi, Iza e Nani; meu pai e Nanda não estavam, mas isto não me abalou.
- Parabéns minha bebê. – falou minha mãe me dando um abraço.
- Parabéns Bia!!! – comemorou Iza e Nani.
- Parabéns! – falou Alex me dando um beijo no rosto e um embrulho peque-no.
- Parabéns. – falou Gabi animada. – Que banda você curte?
- Obrigada gente, – agradeci – curto Nx Zero, por quê?
- Você vai saber. – falou ela.
Fomos ao jardim dos fundos, onde ficava a piscina e a mesa da varanda. Tinham doces e bolo em cima da mesa. Gabi beliscou alguns doces e depois saiu pela porta da frente. Não percebi de início, mas depois dei por falta dela.
- Cadê a Gabi? – perguntei para Alex.
- Daqui a pouco ela volta. – respondeu ele
Dei de ombros e comecei a comer. Depois de uma hora Gabi voltou com três papeis na mão.
- Para você! – disse ela – Na verdade só um é seu, os outros são meu e do Alex.
Olhei e me emocionei com o presente.
- Puxa! Obrigada! – falei entusiasmada.
- O que é? – perguntou Alex aflito.
- Três ingressos para o show do Nx Zero. – respondeu Gabi.
- Que dia? – perguntou Alex.
- Amanhã à noite. – respondeu ela.
- Adorei Gabi. – falei abraçando a.
- Que isso cunhadinha.
A palavra me fez corar e Alex a deu um soco de leve.
A tarde passou rápido com toda aquela diversão.
Quando chegou a noite fui junto com Alex e Gabi para a casa deles. Aproveitamos e levamos minhas amigas para a casa delas. Chegamos na bela casa e nos separamos pelos cômodos, Gabi foi dormir, Alex estava com fome então fomos para a cozinha.
Sentei-me na mesa, enquanto ele mexia na geladeira atrás de um refrigerante e ingredientes para um x-salada.
- Você nem abriu o meu presente, né! Ficou tão interessada nos ingressos da Bi...
- É mesmo, ele está aqui no meu bolso.
Eu abri e vi que era um lindo colar, que parecia ser caro.
- Uau, é lindo. Quanto custou? – perguntei maravilhada.
- É presente. – disse ele com a boca cheia –Não vou falar o preço.
- Legal. – falei rindo – Agora sou mais velha do que você não é?
- Por pouco tempo! – falou ele fazendo careta.
Eram oito da noite, quando tocou a campainha. Alex foi ver quem era, com as sobrancelhas unidas. Dois rapazes bonitos estavam parados na porta, um era alto, moreno e forte, o outro era do mesmo tamanho que eu – médio – e loiro. O menino moreno era extremamente forte e o loiro tinha o mesmo estilo de Gabrielli: o cabelo liso caindo em uma franja na testa e vestia roupas completamente estranhas, como se fossem de outro tempo.
Alex os cumprimentou e convidou para comer um sanduíche. Eles vieram em direção à cozinha e se espantaram em me ver ali, sentada ao redor da mesa. O menino moreno comentou:
- Puxa! Então é verdade? Você roubou mesmo a mina do valentão?
- Cala a boca Max. – falou Alex o empurrando. – Bia, esse é Max e este é Luiz – ele apontou primeiro para o grandalhão moreno depois para o menino loiro.
- Prazer! – eles falaram com um sorriso torto.
Cochicharam alguma coisa entre eles, até que Gabi apareceu pulando a escada e gritando entusiasmada.
- Luiz!
Ela o abraçou, depois o puxou para a escada.
- Namorado dela? – perguntei com uma sobrancelha erguida.
- Não. - respondeu Alex – É o melhor amigo dela, são assim desde quando ela tinha 15 anos.
- E quantos mesmo que ela tem agora? – perguntou Max com uma voz simpática
- Dezenove! – falou Alex com irreverência.
- Nossa! – eu e Max falamos juntos.
- Ela gosta de usá-lo como boneca de vestir. – Alex acrescentou – Sempre o atualizando na moda. E ele faz tudo que ela pede. Como um cachorrinho.
Ficamos conversando até ficar tarde. Max tinha uma educação impressio-nante, quem visse aquele musculoso jamais imaginaria que era tão doce e gentil.
Naquele dia cheguei de madrugada em casa e meu pai já estava preparado para dar uma bronca. Por trás da porta pude ouvir o que ele falava com minha mãe:
- Aquele moleque é de família baixa, não serve para ela!
- Você não o conhece para falar estas coisas. – rebateu minha mãe.
- Menino de verdade é só o Rodrigo. E eu farei o que puder para que eles se casem, nem que eu tenha que sumir com este outro fulano.
As palavras me magoaram, senti como se aquilo fosse um aviso.
Sem coragem, abri a porta a passei pela sala em silêncio. Minha vontade era de gritar o máximo que podia para espantar a raiva, e também chorar para espantar a tristeza que me invadira. Será mesmo que ele era capaz de tudo só para me ver rica?
Eu poderia me render e ficar com Rodrigo, ou então ficar com Alex e armar uma enorme guerra com meu pai. Uma guerra na qual alguém se machucaria, seria superado e infeliz. Neste momento meu pesadelo tomou conta de minha cabeça. Eu estava me vendo chorando naquele campo que antes era lindo e agora fora devastado e morto, sozinha e com um vazio enorme dentro do peito. Será que eu acabaria assim?
Subi para o meu quarto e me tranquei, abafei meu choro com o travesseiro e naquela hora, dormi.

De manhã levantei ao som de uma música baixa ao meu lado, a música que eu mais gostava – Cedo ou tarde, Nx Zero. Espantei-me em ver Gabi no meu quarto tão cedo. E depois vi que não era tão cedo assim, já passava das dez da manhã.
- É hoje, é hoje! – falou Gabi ansiosa.
- O quê? – perguntei cochilando.
- Não acredito que você esqueceu. – falou ela com cara de reprovação – O show do Nx!
- É mesmo, to super ansiosa!
- To vendo! – falou com uma sobrancelha erguida.
- Onde está o Alex?
- Conversando com sua mãe lá na cozinha.
- Ata. – falei já me vestindo.
Tomei um banho rápido e desci para a cozinha. Lá estava ele, tão perfeito, sentado conversando com minha mãe. Ele estava lindo com uma blusa preta que eu adorava, uma calça jeans cinza clara e um boné preto combinando com a blusa. Completamente perfeito.
- Oi. – disse ele com um sorriso torto que me matava.
- Oi. – respondi sem jeito.
Ele pegou a minha mão e me puxou para o jardim, minha mãe ficou olhando pelo canto do olho com um sorriso malicioso e Gabi nos seguiu.
Estávamos sentados no gramado, quando o Hilux preto de Rodrigo encostou no jardim. Todos ficaram olhando de caras feias, mas mesmo assim ele desceu com um embrulho na mão. Era um papel bonito e quadrado.
- Para você! – disse ele com uma voz triste – Eu não me esqueci do seu aniversario, só achei que se eu trouxesse hoje não encontraria com ele. – a palavra saiu com um tom de repulsa.
Eu peguei o embrulho e agradeci. Lá tinha uma porta-retrato com uma foto minha e dele abraçados – uma foto que tiramos no verão passado.
- É para você sempre se lembrar de mim.
Alex se levantou e saiu, com o resto vermelho.
- Ei, curta bem enquanto tem, viu! – provocou Rodrigo
- Ata. – ele respondeu indiferente
- Fica esperto ta bom? – falou Rodrigo lhe apontando o dedo
Desta vez Alex veio em sua direção e já de voz alta falou:
- É uma ameaça? Se for ta perdendo seu tempo, ô nojento!
- É uma ameaça sim e é bom ficar esperto.
Eles começaram a se ofender, até Gabrielli interferir:
- Chega! Vamos embora Alex. Bia, passo aqui mais tarde para te pegar.
E eles se foram.
- Rodrigo, por favor! – falei com cara feia.
- Desculpe! – ele falou já se retirando.
- Ei, - chamei-o – obrigada!
Ele assentiu.
A tarde passou lentamente, mas já era hora do show. Lá estava o Celta me esperando e Gabi completamente aflita. Fizemos todo o caminho em silêncio, Alex estava tranquilo, eu estava ansiosa e Gabi não estava diferente de mim.
Chegamos e o local já estava lotado, nossos ingressos eram vip, iríamos assistir ao show de perto e depois iríamos ao camarim. Eu estava animada, afinal, ia conhecer meus ídolos.
O show foi animado e cansativo e depois no camarim eu e Gabi nos divertimos tirando fotos e gravando vídeo com os integrantes da banda. Alex conversou e se divertiu também, mas não estava tão entusiasmado quanto nós.
Chegamos tarde em casa, e outra vez meu pai estava discutindo com minha mãe sobre eu e Alex. Mas desta vez me intrometi:
- Chega pai! Fale o que quiser, eu amo o Alex e você não pode mudar isto.
- Posso sim. – ele rebateu – Dou tudo o que tenho só para apostar como você ficará com Rodrigo.
- Então diga adeus a seu dinheiro e tudo mais!
Falei e subi as escadas correndo para não ouvir mais nada que pudesse me fazer chorar. Dormi inquieta e outra vez tive um sonho assustador: “Eu estava em uma floresta fechada correndo, fugindo de alguma coisa. De repente me vi em um lugar mais aberto, mas continuava um pouco escuro – típico de floresta. Fiquei parada. De um lado da floresta Alex e do outro Rodrigo. Alex estava triste parado e machucado, Rodrigo estava sorrindo de braços abertos como quem está preste a abraçar alguém. Mas eu não fui em direção a nenhum deles, saí correndo para mais dentro da floresta, mas agora de mãos dadas com Gabi e depois de alguns minutos correndo, fomos parar no jardim florido e aberto do primeiro sonho”. Acordei com o barulho do despertador – era segunda feira – e levantei incomodada pelo sonho incompleto.
Saí de casa sem falar com ninguém, ele estava me esperando imóvel dentro do carro. Entrei e fiquei olhando para seu rosto lindo como se fosse a primeira vez, ele me olhou unindo as sobrancelhas:
- Nossa! Desculpe, mas... Você está péssima.
- Como assim? – perguntei confusa.
- Você está pálida e com olheiras. Quer mesmo ir para a escola?
- Querer, eu não quero. – falei me olhando no espelho, eu estava mesmo péssima – Mas...
- Você não precisa, se não quiser. – ele me interrompeu.
Olhei confusa para ele. Como assim não preciso ir? Ele sorria com malícia.
- Está pensando em matar aula?
- Um dia só não mata ninguém. – disse ele com cara maliciosa – Conheço um lugar lindo aqui, quer ver?
- Claro! – disse depois de me espantar com o que ele estava fazendo.
Ele matando aula? Nunca imaginei.
Fomos seguindo o caminho normal para a escola, até ele entrar em uma estrada de terra que parecia não ter fim. Ele parou em frente a uma floresta fechada – igual ao sonho. Aquele lugar começou a me doer, como se alguma coisa estivesse me falando para não ir.
- Está com medo? – perguntou ele me analisando.
- Não! – menti
- Então vamos. – falou ele ainda me analisando – Faremos um pedaço do caminho a pé, se importa?
- Claro que não. Vamos. – disfarcei
Existia uma trilha levando para dentro da floresta. Apertei minha mão bem forte na dele. Encontramos muitas armadilhas e bichos, mas Alex sabia passar por todas, até que vi uma brecha clara um pouco mais à frente. Lá o sol parecia ser forte, passamos por algumas árvores e logo chegamos aonde ele queria.
Era um campo aberto, iluminado e bem florido. Aquilo me causou vertigem e precisei de um pouco de tempo para me recompor.
Ele pegou minha mão e me puxou para o centro do belo jardim. Ficamos deitados de mãos dadas olhando o formato das nuvens, sempre que podia ele me dava um beijo e isto me fazia esquecer dos sonhos estranho que tive com aquele lugar.
Ficamos lá durante todo o período que ficaríamos na escola. Já estávamos quase indo quando resolvi perguntar algo que estava me incomodando:
- Alex?! – falei com um ar de pergunta.
- Sim?
- Qual o motivo te levaria a ir embora, me deixar aqui e nunca mais voltar?
- Nenhum! Nada me faria ir embora sem você...
Aquela resposta me acalmou, mas vi que ele não tinha terminado.
- Você esta escondendo alguma coisa nessa resposta. – falei desconfiada – Pode falar.
- Bom! A menos que seja para proteger você. Mas isto não será necessário. – Ele falou rindo.
As palavras me fizeram lembrar o livro Lua nova, onde Edward abandona Bella, seu grande amor, só para protegê-la. Isto revirou meu estômago e outra vez senti uma grande vertigem.
- Vamos? – perguntou ele interrompendo meus pensamentos
- Sim. – falei ainda confusa
Seguimos pela trilha até o carro. Ele me levou até em casa como se tivés-semos vindo da escola e ficou lá comigo.
Mais tarde Iza e Nani foram a minha casa para ver porque tínhamos faltado, e antes que minha mãe ouvisse contamos onde fomos.
- A Iza ta toda “felizinha” hoje. – falou Nani com um sorrisinho malicioso.
- Por quê? – perguntou Alex
Elas se entre olharam, ficaram com cara de espanto e finalmente falaram alguma coisa:
- Nossa! – falou Iza – Você tem uma voz linda, nunca tinha percebido.
- É! Locutor de radio. – concordou Nani rindo.
Verdade. Elas nunca tinham ouvido a voz dele, não tão de perto. Era encan-tadora.
Ele corou e continuou:
- Então, por que ela ta “felizinha” hoje?
- Por que entrou um novo aluno na nossa sala, mó gato! E ela ficou conver-sando com ele. – terminou Nani.
Iza lhe deu um soco de leve.
- Como ele é? – perguntei
- Muito lindo. Cabelo castanho médio bem arrepiado, alto, branquinho e legal.
- Uau! – acrescentei.
Alex me olhou pelo canto do olho.
- Deixa de serem sonsas vocês duas! – reclamou Iza – Ele é só um amigo que acabei de conhecer.
- Foi assim que começamos, viu! – falou Alex apontando para mim e ele.
- Até você! Nossa! – falou ela com cara de reprovação
Todos rimos e conversamos o resto da tarde, até meu pai chegar e Alex se retirar antes de algum conflito. Iza e Nani continuaram lá comigo e perceberam o clima de tensão entre meu pai e meu namorado.
- Nossa! Seu pai não gosta mesmo dele, né? – falou Nani
- Não! E isso me machuca. – respondi abraçando o travesseiro.
Ficamos conversando por umas horas e depois elas se foram.

No outro dia fomos para a escola juntos, eu ainda não tinha esquecido o sonho, ele sempre me assombrava.
Entramos na sala de mãos dadas, e desta vez ninguém se espantou. Minhas amigas já estavam lá, mas não me sentei com elas, Ariane estava com Fernanda – ela ainda me olhava torto – e Izabela estava com o tal aluno novo. Ele realmente era bonito.
Sentei-me junto com Alex, embora ele fosse meu namorado, eu não gostava de sentar com ele, me sentia muito burra perto dele, já que ele era inteligente, mas não era de se exibir.
Ficamos quietos, prestando atenção na aula e a hora parecia que não passava – pelo menos não para mim. Finalmente o sinal tocou e fomos para o intervalo. As meninas costumavam ficar sentadas ao redor de uma mesa conversando – eu fazia parte deste grupinho antes de Alex virar meu namorado – e por saudade resolvi sentar junto com elas. Mas havia um novo integrante, o novo aluno. Eu e Alex nos sentamos lá e logo nos acostumamos – menos com Fernanda, – Izabela nos apresentou ao novo amigo:
- Bia, Alex, esse é Caio, o aluno novo. Caio esses são Bia e Alex, meus velhos amigos.
- Prazer. – falou Alex gentilmente lhe estendendo a mão.
Ele retribuiu o aperto de mão.
- Olá! – falei com humor.
Ele assentiu com a cabeça e deu um sorriso. Ele era um rapaz educado e gentil.
Iza parecia se sentir bem ao lado de Caio. Como eu, – no começo – Caio parecia completá-la. Isso era bom. Ela merecia.
Estávamos conversando sossegados, quando Rodrigo apareceu com sua gangue já desafiando Alex:
- Eai! Vem aqui para eu ver se você realmente é homem!
- Como é? – desentendeu Alex.
- Você não é homem o suficiente para roubar a namorada dos outros? Prova se é homem o bastante para me enfrentar!
Alex se levantou com os punhos fechados, eu me coloquei na frente, mas fui jogada no chão por Rodrigo, isso irritou mais Alex.
Ele foi para cima de Rodrigo com os olhos vermelhos e as mãos tremendo. Em um segundo eles estavam em cima um do outro se socando feito selvagens. Eu me enraivei e comecei a xingar Rodrigo, mas meus gritos foram abafados pelo som de agito da galera.
Já estava aflita vendo aqueles dois se socando e o pior que era por minha culpa, não podia fazer nada. Fernanda veio ao meu lado e começou a jogar indireta:
- Nossa! Não acredito que eles estão brigando por pouca coisa! Desperdício.
Fingi que não era comigo, mas ela continuou:
- Viu no que dá, querer ser muito?
Continuei imóvel.
- Se fosse comigo, o Alex nunca teria um arranhão, eu cuidaria dele melhor.
Aquilo me irritou e rebati:
- Que pena que ele não é seu, você não tem tanta capacidade para consegui-lo.
E saí de perto dela.
A briga continuava, Rodrigo parecia muito mais forte do que Alex, mas era o que estava mais se machucando. Tomei coragem e me enfiei ali no meio, agarrei Alex com força e o tirei de lá. Eles se soltaram, Alex sangrando na sobrancelha e um pouco na boca, Rodrigo sangrava na boca, no nariz e na testa. Abracei-o com força e fui tratar daquele machucado.
Pude ouvir atrás de nós, Rodrigo falando calúnias e os amigos fazendo algum tipo de ameaça.
Sentamos em um dos bancos perto da sala de aula. Alex reclamava do sangue da sobrancelha que estava escorrendo para os olhos.
Era um corte pequeno, mas sangrava muito. Precisei do meu kit que sempre usava com Rodrigo depois dos seus jogos. Era impressionante como até os curativos ficavam melhores em Alex.
- Ta doendo muito? – perguntei passando um algodão em sua sobrancelha.
- Não! Mas estou explodindo de raiva!
Seu rosto estava vermelho, mas de um jeito diferente, como se fossem explodir as veias do pescoço.
- Você não devia ter se rendido. – falei com cara de reprovação.
- Eu não ia bater nele, mas quando ele te jogou me deu muita raiva.
- Oh amor! Não faz mais isso ta bom?
- Ta! – disse ele sorrindo
- Te amo. – falei beijando o canto de sua boca que não estava machucado.
- Te amo. – respondeu ele triste pelo ocorrido.
O sinal para a próxima aula tocou e entrei na sala ainda cuidando de seu machucado. Todos voltaram a nos olhar, mas desta vez com admiração, eu não sabia o porque.
A expressão de nossos colegas era estranha. Alguns olhavam assustados, outros faziam sinal positivo com o polegar e apenas Fernanda que olhava feio.
Estávamos em nossos lugares, quando a primeira pessoa veio cumprimentar Alex:
- Oh, parabéns! – falou Jonatan, um colega de classe.
- Pelo o quê? – perguntou Alex confuso.
- Cara, você bateu no bonzão, ele ta todo sangrando. Até quem fim alguém ensinou para ele, você agora é o pop da escola.
Eu gemi com a palavra. Estava namorando o popular da escola, de novo.
- Ta valeu! – agradeceu Alex com um olhar confuso.
Depois todos vieram cumprimentar ele também, menos a gangue do Rodrigo.
Estávamos indo embora quando Rodrigo passou por nós com seu BMW e gritou:
- Fica esperto isto não ficou barato!
Eu me assustei, nunca tinha visto Rodrigo assim, mas Alex nem se abalou.
Fomos embora em silêncio, eu ainda reparava em seu machucado, me sentia mal em ver aquilo e saber que foi tudo minha culpa. Mas mesmo com um curativo, ele ainda parecia um príncipe. Era impressionante como eu ainda ficava tonta com sua beleza.
Ele começou a se contorcer e depois percebi o porque, eu estava encarando-o e isto lhe-incomodava.
Paramos em frente a minha casa, ele ficou parado com uma cara de raiva.
- Não vai descer? – perguntei unindo as sobrancelhas.
- Hoje não, estou vendo o carro do seu pai, ele está aí.
- É mesmo. Até amanhã.
- Ta.
Ele me deu um beijo de despedida e saí do carro. O vi sumir na primeira esquina e aquilo me apertou, como se ele tivesse ido embora para sempre.